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Opinião

Boris e a “special relationship”

Boris é também a coisa mais parecida com Donald Trump de que o Reino Unido dispõe. Não apenas nas maneiras e na linguagem desabrida, mas nas convicções essenciais.

1. É mais ou menos consensual que Boris Johnson não tem os requisitos mínimos necessários para liderar o Reino Unido, ainda por cima num momento que muitos analistas consideram como a mais radical mudança da sua inserção internacional desde a II Guerra. Mas também já se sabe que ele vai ganhar a corrida, que estará concluída a 23 de Julho, não porque seja o favorito das sondagens, mas porque é o preferido entre os cerca de 130 mil militantes tories que votam para a escolha do seu novo líder. Que o Partido Conservador britânico estava, definitivamente, nas mãos dos nacionalistas ingleses já se sabia. Por convicção ou por mero cálculo político, uma ampla maioria quer um “Brexit” à maneira de Boris e pensa que ele é a coisa mais parecida com Nigel Farage de que dispõe e, portanto, quem mais facilmente recuperará os votos perdidos para o líder do Partido do Brexit nas europeias.

Boris é também a coisa mais parecida com Donald Trump de que o Reino Unido dispõe. Não apenas nas maneiras e na linguagem desabrida, mas nas convicções essenciais. Trump é contra a integração europeia, Boris também (pelo menos, quando lhe convém). Trump defende que cada país deve lutar pêlos seus interesses com todas as forças de que dispõe e que é este o único fundamento das relações internacionais. Boris também. “Britain First”. Trump é capaz de mentir com a mais impressionante das tranquilidades, caso a realidade não encaixe na sua vontade. Boris já provou que é exímio na mesma arte.

A sua entrada iminente em Downing Street diz bem até que ponto o sistema político britânico entrou em colapso, deixando o país à mercê do nacionalismo inglês (um risco para a unidade do Reino que nunca preocupou os nacionalistas ingleses) ou, em alternativa, de uma liderança trabalhista saída do baú dos anos 80, contra quase tudo o que o povo britânico construiu desde a II Guerra: uma economia liberalizada e pujante, uma influência mundial acima da sua dimensão relativa, uma capacidade militar assinalável, incluindo a sua frota nuclear, uma crescente influência na Europa (que começou com Blair) e uma sólida aliança com os EUA.

Jeremy Corbyn é contra a União Europeia, contra a economia de mercado, contra a frota nuclear, contra a NATO, cultiva o antiamericanismo e vê Putin com grande condescendência. Só faltavam as provas cada vez mais evidentes de que pactua com o anti-semitismo para o quadro ficar completo. O centro político implodiu, mesmo que as eleições europeias tenham provado que pode reconstituir-se.

2. O último episódio desta triste história de uma das nações mais avançadas e livres do mundo envolveu o embaixador britânico em Washington e é mais do que uma simples crise diplomática. Do Presidente americano já nada nos consegue surpreender. Já o vimos insultar Merkel, Macron e Theresa May. Mantém intacta a sua empatia com Putin. Identifica-se com qualquer “homem forte”, seja ele Duterte, Bolsonaro ou o príncipe herdeiro saudita ou, mais próximo de nós, Orbán e Salvini. Os termos que usou para classificar o embaixador Kim Darroche fazem jus ao que estamos habituados e confirmam o teor dos telegramas enviados por ele para o Foreign Office sobre o que esperar do ocupante da Casa Branca.

O Governo de Londres defendeu o seu embaixador. Boris defendeu Trump e gozou com Darroche e com May. Não é um simples incidente. Os defensores de um corte radical com a União Europeia poderiam ter como argumento a “special relationship” com os Estados Unidos, forjada na guerra e cultivada por todos os primeiros-ministros britânicos desde essa altura. O papel do Reino Unido como a ponte que mantinha os dois lados do Atlântico unidos mesmo em momentos de crise transatlântica, foi um contributo precioso.

Mesmo perdendo esta dimensão, lá estaria a América para dar força a uma média potencia global capaz de singrar no mundo sem as amarras europeias. O cálculo falhou porque, em simultâneo com o referendo britânico, os americanos elegiam um Presidente que punha em causa, um a um, os grandes princípios em que assentou a politica americana desde o pós-guerra e também a sua relação com a Europa incluindo o Reino Unido. “Aliados” é palavra que não existe no mundo de Trump. A Europa é uma aberração, tal como a NATO, que Londres não está em condições de dispensar. Apoia entusiasticamente o “Brexit” porque corresponde à sua visão do mundo como uma guerra entre nações e porque é uma forma de enfraquecer a Europa.

Mas, como já demonstrou várias vezes e voltou agora a fazê-lo, aprecia sobretudo uma relação de vassalagem. Como escreveu Martin Kettle no Guardian, o que aconteceu não foi apenas uma “tempestade diplomática”, mas “um desafio existencial para a política externa britânica”. Trump, prossegue Kettle, só reconhece o “desprezo pelos outros países, pelas alianças e pelos acordos internacionais”. “Se Johnson chegar onde quer, o Reino Unido pode voltar a abraçar os EUA. Mas a América que abraça não será a República aberta ao mundo desde Eisenhower até Obama, mas um país ‘excepcional’ voltado para dentro de si próprio, que procura destruir tudo o que resta da ordem internacional. Neste mundo, o Reino Unido corre o risco de se tornar um vassalo de um Estados unilateralista e caprichoso.”

Já se percebeu, aliás, que tipo de “acordo de livre comércio” Trump quer negociar com o Reino Unido: como fez com outros países como o México ou o Canadá, impondo a lei do mais forte e obrigando-o a escolher entre a Europa e a América no que refere à questão fundamental dos standards – uma escolha impossível para um país cujas trocas comerciais com a Europa representam mais de 50%. Por alguma razão, os últimos tempos têm provado que o alinhamento de posições entre Londres e as principais capitais europeias é a regra: face à Rússia, aos EUA, ao Irão ou à China.

Finalmente, Boris quer mesmo uma saída sem acordo no dia 31 de Outubro? É duvidoso. Se o único objectivo que o move é entrar no n.º 10 de Downing Street, não quer certamente enfrentar uma situação económica demasiado negativa, para a qual quase toda a gente avisa, incluindo os empresários. Pelo contrário, continua a acreditar que pode mudar alguma coisa no acordo de saída negociado por May, que chegue para vê-lo aprovado no Parlamento.

4. Se Londres não teve nem tem estratégia, não se pode dizer que a União Europeia tenha tido uma estratégia adequada ao que está em causa. Teve uma só obsessão: manter uma “muralha de aço” entre os restantes 27, não apenas como arma negocial, mas para provar a si própria que mais ninguém queria seguir o mesmo caminho. Por isso, não facilitou. Por isso também não conseguiu nunca olhar para a floresta, tendendo a minimizar o país que ousava sair e a maximizar os seus trunfos. Nem ela própria está nas melhores condições para ficar sem o Reino Unido, nem o Reino Unido é assim tão fraco que só lhe reste pagar um preço insuportável pela sua “cegueira”.

A negociação mais importante será aquela que começa depois de ratificado o acordo de saída ou de uma saída sem acordo: a relação futura entre os dois lados da Mancha. Boris e outros nacionalistas ingleses podem fazer enormes erros de cálculo, como aquele que fazem em relação aos EUA. Também não lhes será fácil negociar acordos comerciais vantajosos com médias ou grandes potências, porque elas próprias têm, quase todas, acordos comerciais com a União, cujo mercado é bastante mais atractivo. A Índia e os EUA estão longe de ser a resposta fácil que apregoam.  

Só há um interesse mútuo: manter uma boa relação o mais ampla possível. Para a Europa, porque os britânicos são líderes numa série de sectores dos quais depende a capacidade europeia para se afirmar no mundo. E não estamos apenas a falar da Defesa. Qual é o país europeu mais avançado no domínio da IA? Ou da cibersegurança? Ou da luta contra o terrorismo? O Reino Unido. Qual é o país europeu com a fatia de leão no desenvolvimento das indústrias de armamento? O Reino Unido. Onde estão a melhores universidades europeias? No Reino Unido. Poderíamos acrescentar inúmeros exemplos. E se isto é verdade, também quer dizer que as Ilhas não estão totalmente destituídas de argumentos para singrar no mundo como uma média potência, como outras, mas mais forte do que as outras em múltiplos sectores. Ou seja, de um lado e de outro há bons argumentos para querer evitar uma ruptura. Por isso, é bom acabar rapidamente com a ideia de que a força da Europa se mede por não mexer um milímetro da sua posição actual.