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Boris Johnson: o jornalista ambicioso que se agarrou ao “Brexit” para chegar ao topo

Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e mayor de Londres chega a primeiro-ministro do Reino Unido depois de percorrer um caminho de polémicas, que lhe valeu a admiração e o desprezo de amigos e inimigos. Entre os jornais e Downing Street deu a cara pela saída da UE e promete cumpri-la a todo o custo.

“É um homem que espera para ver para que lado a multidão está a correr antes de ‘sprintar’ para a dianteira e gritar: ‘sigam-me!’”. Não é nada simpática esta descrição que o antigo vice-primeiro-ministro britânico conservador, Michael Heseltine, fez de Boris Johnson, em Setembro do ano passado, quando este intensificava a sua oposição ao acordo do “Brexit” que viria a ser alcançado entre Theresa May e a União Europeia – e que a fez cair, meses depois. Mas falar do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-mayor de Londres é falar de controvérsia e de contradição. Tal como a sua chegada ao número 10 de Downing Street: mais do que expectável e, ao mesmo tempo, estranhamente surpreendente.

O novo primeiro-ministro do Reino Unido construiu a sua imagem e carreira política sobre a admiração e o desprezo de eleitores, adversários políticos e colegas de partido. As gaffes confrangedoras, as declarações polémicas, as críticas mordazes e as crónicas imaginativas, insultuosas e populistas para os que o abominam, são, no entanto, provas, para os que o estimam, de uma autenticidade e de uma franqueza sem iguais no espectro político britânico.

“Johnson esteve envolvido em várias controvérsias na política e na sua vida pessoal e não é fácil debater com ele sobre factos, pelo estivo evasivo. Mas é visto por muita gente como uma personagem que tem tanto de engraçada como de autêntica”, diz ao PÚBLICO Roger Eatwell, professor de Política Comparada da Universidade de Bath e co-autor do livro National Populism – The Revolt Against Liberal Democracy

“Para estas pessoas é um tipo de político totalmente diferente de May ou dos políticos ‘cinzentos’ que se rodeiam e dependem de assessores. E para o Partido Conservador é o único que pode recuperar votos ao Partido do Brexit, se houver eleições”, acrescenta.

Mas se o caminho de Boris Johnson até ao mais alto cargo político do país cresceu e alimentou-se do estado de constante agitação mediática, o desafio que tem pela frente aconselha precisamente o contrário. Faltam três meses para a data oficial de saída do Reino Unido da União Europeia e se o Governo quiser cumprir a promessa de completar esse desígnio no dia 31 de Outubro, precisará de toda a estabilidade do mundo para lograr consensos em três arenas, até ao momento, inconquistáveis: o Partido Conservador, o Parlamento britânico e Bruxelas.

O mais reconhecido rosto da campanha pelo “Brexit” no referendo de 2016, a par de Nigel Farage, não quer ser como May e desaproveitar a oportunidade de ficar na História como o primeiro-ministro que resgatou o Reino Unido dos grilhões europeus e que lhe devolveu a independência política, comercial e judicial de outros tempos. Tal como a antecessora, o fracasso ou sucesso dessa missão tratará de escrever o legado que deixa ao país e à Europa.

Os jornais, antes da política

Antes do primeiro-ministro, do ministro e do autarca, houve o deputado, o jornalista e o estudante. Alexander Boris de Pfeffel Johnson nasceu a 19 de Junho de 1964, em Nova Iorque. Até se fixar definitivamente em Inglaterra, viveu com a família nos Estados Unidos e em Bruxelas – o pai, Stanley Johnson, trabalhou no Banco Mundial e na Comissão Europeia antes se dedicar à política, no Partido Conservador, e à escrita.

Boris Johnson estudou no Eton College e na Universidade Oxford, dois dos estabelecimentos mais prestigiados e elitistas do Reino Unido, tendo sido líder estudantil no segundo, onde cursou Estudos Clássicos. Depois de uma breve passagem pela consultoria empresarial, lançou-se na carreira jornalística, pela mão do Times.

Foi como jornalista que começou a ganhar nome e reputação e foi também como jornalista que protagonizou o seu primeiro momento controverso. Em 1988, um ano depois de ter ingressado no histórico jornal londrino, Johnson foi despedido por ter inventado uma citação.

O episódio infeliz não lhe travou, no entanto, o progresso na carreira. Foi contratado pelo Daily Telegraph, onde trabalhou durante uma década, incluindo um período de cinco anos como correspondente em Bruxelas. Na capital belga não perdia uma oportunidade para dar alfinetadas às instituições e procedimentos europeus, oferecendo à opinião pública e aos leitores um relato eurocéptico e crítico do que por ali se passava.

No Telegraph, Boris deu também a conhecer um estilo de escrita refinado e criativo, em muitos aspectos sarcástico e até satírico – ainda tem uma coluna no jornal, onde prossegue essa tendência. Em 1994 juntou-se à revista Spectator, assumindo mais tarde o cargo de editor, numa altura em que já não escondia a tentação por voos mais altos.

“Johnson foi um jornalista altamente bem-sucedido, mas sempre foi claro que ambicionava a altos cargos na política”, conta Eatwell. “Desde muito novo que fez questão de o manifestar”.

Da imprensa escrita conservadora e de centro-direita, Johnson passou para a política activa da mesma ideologia, seguindo as pisadas do pai. Mas uma primeira derrota, em 1997, contra o trabalhista Martyn Jones, impediu-o de chegar à Câmara dos Comuns, como candidato do Partido Conservador pelo círculo eleitoral de Clwyd South, no País de Gales.

O reconhecimento em Londres

A segunda tentativa viria a ser bem-sucedida. Presença habitual em programas televisivos de debate, deliciando o grande público com o seu jeito atabalhoado, humorístico e corrosivo, e autor de livros diversos, Johnson venceu, em 2001, a corrida em Henley-on-Thames, uma circunscrição geograficamente e politicamente mais próxima da sua zona de conforto – em Oxfordshire, nas mãos dos conservadores desde 1910.

A eleição para a câmara de Londres, em 2008, catapultou definitivamente Boris Johnson para o estrelato político. Principalmente no contexto difícil em que se executou. Os tories não entravam em Downing Street há mais de dez anos, às custas dos governos de Tony Blair e de Gordon Brown, e o histórico trabalhista Ken Livingstone mandava na capital há oito anos. Com uma campanha direccionada para a criminalidade e os transportes na cidade, Johnson derrotou “Red Ken” (“Ken Vermelho”) na segunda volta. 

A conquista de Londres foi o pontapé de saída para a recuperação do Partido Conservador, a nível nacional, que dois anos depois viria a ganhar as legislativas, com David Cameron ao leme. 

Em Londres, Johnson sentiu-se como peixe na água e tanto a sua conquista, como o exercício de um cargo público de topo no Reino Unido, permitiram-lhe adquirir alguma credibilidade política, dando-lhe a oportunidade de provar que era muito mais do que um comunicador engraçado, disruptivo e impulsivo, com um penteado esquisito e com tendência para deixar escapar comentários entendidos pela crítica como racistas, sexistas ou xenófobos.

Isso não o impediu, ainda assim, de estar constantemente envolvido em situações caricaturais, fosse por ziguezaguear no meio do trânsito londrino numa bicicleta pequena de mais para o seu tamanho, por se pendurar num cabo para promover os Jogos Olímpicos em Londres ou por derrubar uma criança japonesa de dez anos na recriação de um jogo de râguebi, entre outros momentos icónicos.

“Os políticos que chegam ao topo têm a tendência para ser altamente ambiciosos, é normal. Mas Johnson exagera na sua autopromoção”, admite Roger Eatwell. “Há uns anos isto seria problemático para o Partido Conservador, que historicamente sempre definiu o exercício o poder como um acto de serviço ao país”.

Cabeça-de-cartaz do “Brexit”

Liberal nos costumes, pro-business e promotor das vantagens do multiculturalismo e do mercado único europeu na dinâmica laboral, imigratória e económica da capital britânica, Boris Johnson era eurocéptico, mas estava longe de ser o fervoroso brexiteer que se apresenta hoje ao eleitorado.

Mas é precisamente na caminhada britânica até ao referendo à Europa que Johnson – que volta a Westminster em 2015, eleito por Uxbridge and South Ruislip, nos arredores da cidade onde era mayor – toma aquela que foi, muito provavelmente, a maior decisão da sua carreira política até ao momento: dar a voz e a cara pela campanha do “Leave”.

Para os críticos e aliados de Boris, este viu na possibilidade de ser figura de proa do “Brexit” uma oportunidade para ir mais longe – leia-se a liderança do Partido Conservador e o número 10 de Downing Street. Não se recandidatou à câmara, rebelou-se contra o remainer tímido Cameron, distanciou-se do espalhafatoso brexiteer Farage e atirou-se de cabeça na campanha para o referendo, apoiado e aconselhado por Michael Gove.

O Johnson cosmopolita, liberal e empreendedor cede lugar ao Johnson nacionalista e saudoso do Império. Ao Johnson que alerta para os perigos da adesão iminente da Turquia à UE, que grita “fuck business” quando lhe falam das estimativas económicas pós-“Brexit”, que jura repetidamente sobre o cálculo errado das contribuições britânicas para a Europa e a possibilidade de injecção de 350 milhões de libras por semana no sistema nacional de saúde – uma “promessa infame”, segundo Eatwell – e que vê o Reino Unido como uma “colónia” da UE.

“A ambição de ser primeiro-ministro foi crucial para fazer campanha pelo ‘Brexit’”, considera o investigador britânico, que identifica na postura de Johnson contradições evidentes: “Ao contrário de outros tories, não era um brexiteer. Adoptou essa posição para cimentar a sua posição no partido. Ao mesmo tempo, não é hoje associado a uma clara posição ideológica para além do ‘Brexit’”.

Com May e contra May

Consumada a opção dos britânicos pela saída da UE, no referendo de 2016, e aberta a corrida à sucessão de Cameron, que saiu de cena após a divulgação do resultado, tudo apontava para que Boris Johnson se chegasse à frente. Mas o ex-mayor recuou, julga-se que devido à deserção de última hora de Gove, que decidiu concorrer sozinho na eleição interna vencida por Theresa May.

Consciente da sua reputação entre os tories eurocépticos, a primeira-ministra convidou Johnson para liderar o Ministério dos Negócios Estrangeiro britânico. Este exerceu o cargo durante dois anos, somando mais um par de gaffes e polémicas envolvendo a Líbia, a Birmânia ou o Irão e sendo repetidamente elogiado por Donald Trump.

A estratégia de May para o “Brexit” encurtou a sua estadia no Governo e no Verão de 2018 Boris Johnson bateu com a porta, criticando duramente a opção da líder do executivo de manter o Reino Unido próximo das instituições europeias.

“As pessoas votaram para recuperar o controlo da sua democracia e foi-lhes dito que iriam poder gerir a sua própria política migratória, redistribuir o dinheiro gasto com a UE e, acima de tudo, aprovar leis de forma independente e respeitando os interesses deste país”, escreveu Johnson, na sua carta de demissão. “Esse sonho está a morrer, sufocado por receios injustificados”.

A oposição interna a May começou aí. Entre ataques no Telegraph, críticas em eventos públicos e conspirações de bastidores com a ala hard-brexiteer dos tories, Johnson foi juntando apoios para mudar a liderança do Partido Conservador e encontrar mais adeptos para uma saída sem acordo. Chegou a votar a favor do acordo do “Brexit” na Câmara dos Comuns, mas só à terceira tentativa e na iminência de novo adiamento da saída – frustrada em Março. 

Quando a queda de Theresa May se tornou inevitável, estava na linha da frente para a suceder, chegando mesmo a assumir-se como candidato vários dias antes de a primeira-ministra confirmar oficialmente a sua demissão

O resto já se sabe: somou tantas vitórias quantas votações na maratona eleitoral dos deputados conservadores e arrasou Jeremy Hunt na eleição final, com 66% do apoio de 87% dos mais 159 mil militantes tories que participaram. O que não se sabe ainda é como vai desatar o nó do “Brexit”.