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O segredo do sucesso do Famalicão tem um nome: Jorge Mendes

Impulsionado pelos milhões de Idan Ofer, milionário israelita com fortes ligações ao líder da Gestifute, o clube famalicense é a equipa-sensação deste início de temporada e lidera a I Liga ao fim de cinco jogos.

Jorge Mendes Sergio Perez

Quando a 12 de Maio do ano passado o Famalicão terminou a II Liga no 14.º lugar com uma sequência de quatro derrotas e um empate, muitos dos adeptos famalicenses terão respirado de alívio pela chegada do final da temporada. Após duas décadas perdido nos escalões não profissionais, com direito a passagem pelos distritais da AF Braga, o clube minhoto garantia pela terceira época consecutiva a permanência na II Divisão e consolidava a sua posição no escalão. Porém, um ano depois, a realidade do Famalicão parece saída de um filme de ficção. Com quatro vitórias e um empate, os famalicenses repetem um feito apenas conseguido por Boavista e Sp. Braga no século XXI: furar o domínio dos “grandes” e liderar de forma isolada a I Liga à quinta jornada. O segredo do sucesso do Famalicão não é, no entanto, obra do acaso e tem um nome: Jorge Mendes.

Para alguns será apenas um fogacho, para outros terá um prazo de validade curto, mas a surpreendente liderança do Famalicão ao fim das primeiras cinco jornadas da I Liga resulta de um projecto que começou a ser delineado há mais de um ano, após 92,4% dos sócios do clube aprovarem a autorização da venda de até 90% do capital social da SAD (Sociedade Anónima Desportiva). A autorização para a entrada de investidores foi a oportunidade perfeita para Jorge Mendes.

Com uma relação próximo com o Rio Ave até 2017, o empresário e líder da Gestifute começou a resfriar a sua ligação com o clube de Vila do Conde depois de os sócios rioavistas terem optado em manterem-se como SDUQ (Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas). Sem possibilidade de assumir o controlo do Rio Ave — a Fosun era apontada como interessada em entrar no capital da formação de Vila do Conde —, Mendes manteve-se por perto, mas virou a agulha para Este. O “plano B” estava a apenas a 30 quilómetros de distância.

No final de Junho de 2018, na mesma semana em que os sócios do Famalicão acederam a que o clube perdesse o controlo da SAD, os famalicenses anunciaram que Miguel Ribeiro — era director-geral do Rio Ave desde 2011 e construiu uma relação próxima com Mendes — seria o homem forte do futebol do Famalicão. No mesmo comunicado, era revelado que a SAD passava a ser detida em 51% pela Quantum Pacific Group, holding detida pelo magnata israelita Idan Ofer, um dos accionistas do Atlético de Madrid (32%). O puzzle completava-se e o projecto podia arrancar.

Dono de uma das maiores frotas de navios a nível mundial, Ofer, de 64 anos, nasceu em Haifa, mas reside em Londres. Com negócios ligados também ao petróleo, produção automóvel e telecomunicações, Ofer surgiu no futebol no final de 2017 ao entrar no capital social do Atlético de Madrid, clube com ligações conhecidas e próximas à Gestifute.

Quatro meses depois de assumir o controlo da SAD, surgiu a primeira aparição pública de Ofer em Famalicão. Com Mendes ao seu lado, o israelita assistiu à vitória frente ao Sp. Covilhã, por 2-1. Curiosamente, o triunfo coincidiu com a subida dos famalicenses ao segundo lugar, posição que o clube não mais perdeu até final da II Liga, garantindo assim o regresso à principal divisão do futebol português um quarto de século depois.

Garantido o primeiro objectivo do projecto, a Quantum Pacific Group reforçou a sua posição (já detém 85% da SAD) numa parceria que, segundo Miguel Ribeiro, pretende “deixar marca no futebol português”. Para isso, o Famalicão apostou em João Pedro Sousa, antigo adjunto de Marco Silva, para liderar a equipa e revolucionou o plantel.

Com um orçamento de sete milhões de euros — os históricos Boavista e Belenenses SAD juntos não gastam esse valor —, o Famalicão reforçou-se com duas dezenas de contratações, dando-se a um luxo que dificilmente estaria ao alcance de qualquer outro clube português, exceptuando os três “grandes”. Com a indispensável influência de Mendes, a base de recrutamento foram clubes como o Wolverhampton, o Valência ou o Atlético de Madrid, de onde chegaram cedidos algumas jovens promessas.

A transformação da equipa em relação à última época fica bem reflectida no “onze” escolhido por João Pedro Sousa na última jornada. Contra o Paços de Ferreira, equipa que terminou à frente do Famalicão na II Liga, os minhotos tinham dez reforços (apenas o guarda-redes Defendi transitou da última época), sendo que o técnico ainda se deu ao luxo de deixar no banco de suplentes dois internacionais pelas camadas jovens de Portugal (Guga Rodrigues e Diogo Gonçalves) e um internacional sub-18 inglês (Josh Tymon).