Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

O “Santo” vai voltar à Terra Prometida

Quarenta anos depois de ter sido despejado pela ditadura em nome da construção de uma auto-estrada, o San Lorenzo de Almagro vai voltar a ter o seu estádio exactamente no mesmo terreno.

"Fizemos dois estádios, vamos fazer três" DR

Um adepto de futebol é um ser romântico, que olha com imensa ternura para o passado mesmo que não tenha vivido nele. Os adeptos do Benfica terão sempre Eusébio, os do Sporting terão sempre os “Cinco Violinos”, os argentinos terão sempre Maradona, os adeptos do Torino terão sempre a memória colectiva de um “Toro” que era o maior de Itália. Para os adeptos do San Lorenzo, essa nostálgica ternura está investida num estádio de madeira que foi a sua casa durante mais de 50 anos, até ao dia em que o clube fundado pelo Padre Lorenzo foi despejado pela ditadura para abrir espaço a uma auto-estrada urbana que nunca viria a passar por ali.

Passaram mais de quatro décadas e o “Santo” conseguiu, finalmente, saltar a última barreira para poder voltar ao bairro onde teve a sua primeira casa. Os dirigentes do San Lorenzo assinaram, na última segunda-feira, os documentos necessários para recuperar o terreno onde foi erguido o seu primeiro estádio e do qual foram expropriados. Nesse dia, juntaram-se mais de 70 mil “hinchas” do “Santo” em Boedo, o bairro onde morou o “Viejo Gasómetro” entre 1916 e 1979, para as celebrações daquilo que os adeptos andam a gritar há 40 anos. “Hicimos dos canchas, vamos a hacer tres.” Fizeram dois estádios, vão fazer três.

Os adeptos do San Lorenzo nunca esqueceram o seu velho templo de madeira onde o clube se elevou à categoria de “grande” do futebol argentino (os outros são Boca Juniors, River Plate, Independiente e Racing Avellaneda). Fundado no início do século XX, em 1908, pelo Padre Lorenzo Massa em Almagro (Buenos Aires), o “Santo” nasceu da preocupação do seu fundador com a segurança dos rapazes do bairro que jogavam futebol na rua – começaram a jogar nos terrenos livres atrás da igreja. Nem dez anos passaram e já estava a ser inaugurado no n.º 1700 da Avenida La Plata o Gasómetro, um estádio com bancadas de madeira com capacidade para 75 mil espectadores, na altura (e durante muitas décadas) o maior estádio de futebol da Argentina.

Nos anos seguintes, o San Lorenzo construiu uma reputação como um dos maiores clubes da América do Sul e nos anos 1940 foi passear essa fama para a Europa, digressão que chegou a passar por Portugal, que viu de perto que os relatos não eram um exagero – goleou o FC Porto por 9-4 e, em Lisboa, esmagou por 10-4 o BSB, uma equipa formada por jogadores de Benfica, Sporting e Belenenses.

Com o crescimento desportivo, o clube começou a pensar em planos para a modernização desse recinto, que poderia passar por um novo. Mas essa modernização foi sendo adiada porque o clube entrou em crise financeira e não teve argumentos para resistir em 1979, quando o regime ditatorial do país, que se tinha instalado três anos antes no poder, decidiu expropriar o San Lorenzo da sua casa na Avenida La Plata recuperando um plano antigo de reestruturação urbana de Buenos Aires e em troca de um milhão de dólares – um dos projectos era construir uma auto-estrada dentro da cidade que iria passar pelo terreno ocupado pelo estádio.

O clube passou a jogar em casa emprestada e, enfraquecido pela despromoção em 1982, foi impotente para impedir a demolição do estádio dois anos depois. A auto-estrada acabou por não passar por ali e os terrenos acabaram por ser vendidos por dez milhões de dólares à multinacional francesa Carrefour, que ali construiu um enorme hipermercado.

Durante década e meia, o San Lorenzo andou a jogar em casa emprestada, até voltar a ter casa própria em 1993, com a inauguração do Estádio Pedro Bidegain (antigo presidente do clube), que os adeptos baptizaram de Novo Gasómetro. Mas o vazio pela expulsão da sua casa espiritual nunca desapareceu e a vontade de fazer um terceiro estádio esteve sempre presente. O 1700 da Avenida La Plata, onde morava agora um hipermercado, era a “Terra Prometida” dos “corvos” de Buenos Aires – o mais famoso de todos, claro, Jorge Mario Bergoglio, que, em 2013, passou a ser Papa Francisco.

Avancemos até 2012, quando foi aprovada uma legislação chamada Lei da Restituição Histórica que, basicamente, obrigou o Carrefour a negociar com o San Lorenzo a recompra dos terrenos. Os sócios uniram-se, contribuíram e, há menos de uma semana, a recompra foi formalizada, sendo que o hipermercado já tinha fechado uns meses antes.

O novo “Velho Gasómetro” não será de certeza de madeira e já tem nome – Estádio Papa Francisco. Ainda estará longe de ser uma realidade palpável, mas já é um sonho realizado, como diz Leandro “Pipi” Romagnoli, antigo médio do Sporting que é um ídolo do San Lorenzo, onde desempenha funções de director-desportivo: “Durante anos ouvi as pessoas a cantar sobre o regresso a Boedo. Desejaram-no tanto que se tornou realidade.”