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Profissão: treinador de lançamentos da linha lateral

Thomas Gronnemark é o primeiro a dizer que tem o emprego mais estranho do mundo, mas a sua numerosa carteira de clientes inclui o Liverpool e o RB Leipzig.

Primeiro mandamento de Thomas Gronemmark: um lançamento não é uma coisa simples dr

Foi um dos momentos mais cómicos do Mundial 2018. Com 30 segundos para se jogar num Irão-Espanha e com a “roja” a segurar uma magra vantagem de 1-0, a selecção de Carlos Queiroz ganha um lançamento de linha lateral no seu meio-campo ofensivo. Milad Mohammadi, defesa-esquerdo, pegou na bola e afastou-se alguns metros da linha lateral. Como o objectivo era colocar a bola na área espanhola, Mohammadi tentou uma acrobacia para ser um herói. Olhou para o céu, beijou a bola, deu-lhe um toque com a testa e lá foi ele para o lançamento-cambalhota que iria mudar o destino do Irão no jogo. Deu a cambalhota, mas perdeu o equilíbrio e a bola não lhe saiu das mãos. Nisto tudo, passaram os 30 segundos, o jogo acabou e, em vez de ser um herói, Milad Mohammadi tornou-se viral. Faltaram-lhe lições com aquele que diz ter o emprego mais estranho do mundo.

Chama-se Thomas Gronnemark, é dinamarquês e é treinador de lançamentos de linha lateral, uma especialidade em que era, até há umas semanas, o recordista mundial – Gronnemark conseguiu, em 2010, lançar uma bola (com cambalhota) a 51,33m, e, em Abril passado, um homem em Dallas conseguiu lançar a 59,8m. “Bem sei, é o emprego mais estranho do mundo”, admitia Gronnemark à BBC em 2018, mas a verdade é que esta especialidade tem procura. Entre os seus clientes estão o Liverpool, o RB Leipzig e duas equipas dinamarquesas (Midtjylland e Horsens) que, segundo o próprio Gronnemark, “marcaram mais de 20 golos na sequência de lançamentos” após ter trabalhado com elas. Ele não tem dúvidas: “Bons lançamentos ganham jogos.”

Gronnemark não é o primeiro a teorizar sobre lançamentos de linha lateral, nem é o único que reconheceu o potencial ofensivo de uma situação de jogo que é, para todos os efeitos, um lance de bola parada. Não é preciso haver estudos (mas há bastantes) para provar que uma equipa tem tudo a ganhar se for mais eficiente nestes momentos de jogo – um estudo português em 2006 estima que 28% dos lançamentos laterais são falhados. Jorge Jesus, por exemplo, terá sido um dos primeiros em Portugal a usar o lançamento como instrumento de ataque, o irlandês Rory Delap fez carreira com os seus lançamentos projectados para as áreas adversárias, e esta também era uma arma muito usada pela selecção islandesa.

É, no entanto, provável que Gronnemark seja um dos poucos (o único?) no mundo que se especializou no assunto e desenvolveu uma metodologia de treino especificamente para os lançamentos. “Para ser honesto, nunca tinha ouvido falar de treinadores de lançamentos. Quando ouvi falar do Thomas, era óbvio que tinha de o conhecer. Quando o conheci, fiquei com 100% de certeza que tinha de o contratar”, admitiu Jurgen Klopp, o treinador alemão do Liverpool, quando contratou o dinamarquês no Verão de 2018 para trabalhar com os “reds” em part-time – o técnico alemão ficou de tal forma convencido com os resultados que prolongou a colaboração por mais uns meses.

Thomas Gronnemark, o guru dos lançamentos DR

O dinamarquês de 43 anos teve vida activa no desporto enquanto futebolista amador, “sprinter” (foi internacional) e praticante de bobsleigh (chegou a fazer provas para os Jogos Olímpicos), encontrando depois nos lançamentos um nicho que podia explorar numa altura em que cada vez menos coisas no futebol são deixadas ao acaso. “Se estão à espera que os futebolistas profissionais sejam lançadores de classe mundial, são bastante optimistas. Geralmente, é o contrário”, refere Gronnemark, que vende serviços diferentes para todas as necessidades: “Os lançamentos podem ser um instrumento de sobrevivência para equipas pequenas. Para os clubes grandes pode contribuir para um jogo mais fluido. Seja em que situação for, é uma vantagem.”

De acordo com o que é permitido pelas leis de jogo (pés no chão, bola lançada com as duas mãos e com o movimento a começar atrás da cabeça, tudo sem ultrapassar a linha), o especialista dinamarquês ensina três tipos de lançamento para outras tantas situações de jogo: o lançamento longo (para meter bolas na área), o lançamento rápido (para contra-ataques) e o lançamento inteligente (para manter a posse de bola sob pressão). Gronnemark tenta pensar em tudo o que está relacionado com os lançamentos. “Tudo o que possam imaginar. Não é apenas a técnica do lançamento, mas como recebê-lo, como abordar o lançamento, o posicionamento, criar espaço…”, refere o dinamarquês, para quem, naturalmente, um lançamento de linha lateral não é apenas lançar uma bola – é um movimento complexo que exige o domínio de 25 a 30 aspectos técnicos, e para descobrir alguns deles, basta ver os vídeos que estão na sua página no Youtube.

A verdade é que o trabalho do dinamarquês, muito gozado quando se soube que ia trabalhar com o Liverpool, tem dado resultados. Por exemplo, Joe Gomez, lateral dos “reds”, fez uma assistência com um lançamento para um golo durante um Inglaterra-Croácia da Liga das Nações, e Gronnemark sente-se orgulhoso do trabalho que fez com ele. “Quando começámos, ele fazia lançamentos de 20 metros, mas agora já chega aos 27”, revelou o dinamarquês, que sabe bem o que correu mal ao desesperado iraniano que tentou o lançamento-cambalhota em pleno Mundial da Rússia: “Ele parecia muito confiante, mas a corrida foi demasiado lenta.”