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A lei da paridade chegou à NBA

A nova temporada da NBA arranca sem um claro favorito. A força gravitacional da Liga mudou-se para Los Angeles, as super-equipas desfizeram-se em várias duplas de elite e acentuou-se a mudança geracional em curso, com a chegada de um nome que promete marcar uma era: Zion Williamson.

Pela primeira vez desde que Michael Jordan fez um hiato na sua carreira para experimentar outro desporto, o beisebol, em 1993, a Liga profissional de basquetebol norte-americano (NBA) arranca sem uma equipa destacada nas apostas de campeão. Desde então, Chicago Bulls, San Antonio Spurs, Los Angeles Lakers, Miami Heat e Golden State Warriors assumiram, de forma alternada ou sucessiva, o favoritismo logo no primeiro dia da época (contrariado no decorrer da competição apenas por fenómenos como os Detroit Pistons, em 2004, os Boston Celtics, em 2008, os Dallas Mavericks, em 2011, os Cleveland Cavaliers, em 2016, ou os actuais campeões Toronto Raptors).

A última dinastia chegou ao fim com a fragmentação dos Warriors, dizimados por lesões graves de Kevin Durant (que saiu para os Brooklyn Nets) e Klay Thompson. E, progressivamente, as super-equipas dos Warriors e Cavaliers foram-se desfazendo com o fortalecimento do poder e livre arbítrio dos jogadores, culminando num tabuleiro em que nove a dez equipas podem entrar para todas as partidas com a convicção de que vão acumular os 98 jogos necessários, no mínimo, para serem campeões. Uma sensação de equilíbrio que a Liga procurava desde que mudou as regras laborais para permitir uma maior dispersão de jogadores por todo o país, mas que só conseguiu, na prática, mais pelas relações e interesses pessoais dos melhores atletas do que por uma qualquer varinha mágica política que fizesse equivaler Los Angeles a Oklahoma nuns Estados Unidos irreais de perfeita paridade.

Apesar da expectativa que está a gerar em todos os adeptos da modalidade, a temporada de 2019-20 – que dá os primeiros passos esta terça-feira, com dois jogos – terá a acompanhá-la uma nuvem negra pouco habitual de contornos sociopolíticos. Depois de gozar durante anos da admiração geral pelo activismo político interno, o violento choque com a China que marcou a pré-temporada – com jogos cancelados, contratos rasgados e censura chinesa como represálias por uma mensagem de solidariedade com Hong Kong partilhada por um dirigente dos Houston Rockets – provocou um desconforto entre fãs, observadores e entre os próprios profissionais da Liga, que poderá dissolver-se entre dribles, afundanços ou triplos, mas dificilmente desaparecerá.

A Batalha de LA

O núcleo do planeta da NBA regressou a Los Angeles neste Verão e com uma força gravitacional acrescida. Desde há muito que a cidade californiana é dominada pelas cores amarela e púrpura, tendo a chegada, no ano passado, de LeBron James e, este ano, de Anthony Davis, acentuado essa crença de uma hegemonia inquestionável. No entanto, este ano há uma novidade: os rivais eternamente desprezados surpreenderam todos e conquistaram a confiança de duas das maiores estrelas da Liga: Kawhi Leonard (que levou os Raptors a um dos títulos mais improváveis da história) e Paul George.

Os Los Angeles Clippers têm, no papel, a equipa mais completa e coerente de toda a Liga. Depois de terem construído um plantel equilibrado, com atitude, capacidade de sacrifício e sentido colectivo, trabalhado por um treinador campeão (Doc Rivers), acrescentaram-lhe dois dos melhores 15 jogadores da Liga, um deles o MVP das finais. Uma improbabilidade, até financeira, só possível pelo facto de o bilionário Steve Ballmer ter paulatinamente contratado algumas das mentes mais brilhantes da gestão desportiva, tecnológica e médica, numa estratégia sem precedentes de construir um novo colosso em Los Angeles. O único risco é clínico: as duas estrelas precisam de ser geridas com pinças para não terem recaídas de problemas físicos antigos.

Os incumbentes Lakers são favoritos, quase na mesma medida, mas por razões inversas: o clube tem sido vítima de sucessivos problemas de gestão, crises de liderança e mau ambiente interno. A actual equipa é um plano B, depois de falhada a contratação de uma terceira estrela, como Durant, George ou Leonard, entre outros. Mas no topo da hierarquia da NBA há poucas cadeiras e duas delas são ocupadas por LeBron e Davis. Embora também eles com um moderado risco de problemas físicos, sozinhos podem levar os Lakers ao título, mesmo numa equipa desequilibrada, com muitos jogadores banais e com um treinador que gera mais dúvidas do que certezas.

Gigantes com pés de barro

Na NBA de sempre, as duas equipas de Los Angeles seriam as únicas verdadeiras candidatas. Mas na nova Liga há um conjunto de sete equipas construídas com tempo e paciência, aproveitando todas as armas disponíveis agora nos mercados menos apelativos (modernidade tácticas, análise de dados, inovação tecnológica e uma nova vaga de jogadores independentes) para entrar a sério na corrida ao trono da Liga. Ainda assim, algumas fragilidades latentes podem deitar tudo a perder.

No topo da lista, está a equipa do novo MVP da Liga, o grego Giannis Antetokounmpo, os Milwaukee Bucks, que dominaram a última época até caírem contra os actuais campeões perante a incapacidade de encontrarem uma alternativa válida ao seu líder, travado por uma defesa de elite que soube aproveitar os seus pés de barro: lançamento exterior. Antetokounmpo assumiu a sua debilidade e prometeu resolvê-la durante o Verão. Será esse o teste decisivo à capacidade de a equipa voltar a umas finais da NBA, embora o facto de terem perdido peças importantes possa enfraquecer uma máquina de jogar basquetebol que continuará, ainda assim, a triturar a Liga até aos jogos mais importantes de Maio.

Os seus maiores (e únicos) rivais na Conferência Este, os Philadelphia 76ers, sofrem do mesmo problema: a fragilidade nos lançamentos longos de um dos seus melhores jogadores, o base Ben Simmons, que, com Joel Embiid, forma a dupla na qual assenta uma equipa que esteve a um lançamento feliz de travar os eventuais campeões do ano passado. Os Sixers reconstruíram-se em torno das duas estrelas, optando por apostar numa equipa potente, alta e muito defensiva. Mas perderam dois lançadores de triplos de elite (J.J. Redick e Jimmy Butler), importantes numa área do jogo na qual Simmons lança muito pouco e Embiid lança de mais.

No lado oposto do país, as duas equipas que têm vindo a travar duelos electrizantes ficaram em situações mais precárias, depois dos píncaros atingidos nos últimos anos, mas mantêm candidaturas convictas a permanecerem no topo. Os Warriors estão feridos, pela saída de Durant e a lesão grave de Thompson, mas Stephen Curry tem de novo a equipa à sua volta – como nos anos do duplo e hegemónico galardão de MVP -, o clube tem um pavilhão novo para encher e o plantel mantém uma cultura de vitória que pode atenuar o enfraquecimento inevitável, sobretudo na fase defensiva. Para entreter enquanto não regressa Klay, o jovem e talentoso D’Angelo Russell encaixará como uma luva no estilo de jogo fundado por Curry.

Já os rivais dos Warriors, os Rockets, de James Harden, entram numa temporada de alto risco, como aliás tem sido o padrão do seu director Daryl Morey, o homem que partilhou a mensagem sobre Hong Kong que provocou o violento boicote da China. Um episódio que promete deixar marcas no próprio clube – com o dono da equipa e a sua maior estrela a pedirem desculpa a Pequim pelo acto do seu dirigente , que tem mais fãs e mais receitas na China do que no Texas. O ambiente já não estava saudável, com incerteza em torno do treinador e a saída conturbada de Chris Paul, em choque com Harden. E Morey – o ideólogo da aposta extrema nos triplos que contagiou toda a Liga – decidiu apostar as fichas todas em Russell Westbrook, ex-estrela dos Oklahoma Thunder, cujo jogo é a antítese da sua filosofia e cuja personalidade é explosiva se misturada com os ingredientes errados. No entanto, a amizade entre Westbrook e Harden, num sistema de alta produtividade e com a motivação certa depois de anos de frustrantes falhanços de ambos nos play-offs, traduz-se numa candidatura realista.

Novos candidatos

Na nova Liga, também é possível construir um plantel devagar, procurando criar a mistura perfeita de talentos que, no ano certo, pode acabar por traduzir-se num candidato sério ao título. É o caso dos Utah Jazz, Denver Nuggets e Portland Trail Blazers, três equipas que no último ano experimentaram a frustração de perderem nos play-offs contra equipas mais maduras na fase decisiva do ano.

Os Jazz assentam num binómio ataque-defesa traduzido pelas suas estrelas, o poste Rudy Gobert e o base Donovan Mitchell, jovens talentosos que já cometeram erros suficientes em jogos decisivos que os prepararam para dar o salto. Este ano, estão acompanhados por um plantel que sofreu retoques substanciais para colmatar o persistente defeito da equipa nos últimos anos: o lançamento longo e a capacidade de decisão em momentos chave da partida.

Os Blazers já acumularam tantas experiências inesquecíveis nos play-offs, boas e más, desde que Damian Lillard chegou a Portland, que podiam accionar o botão da renovação e voltar a construir em torno da sua estrela maior. Mas a paciência numa cidade periférica dos Estados Unidos permite ir fazendo ajustes, numa combustão lenta que entregue ao seu fascinante líder em campo armas cada vez mais fortes para dar o salto. O seu companheiro de sempre C.J. McCollum continua a formar a melhor dupla activa de bases da Liga (enquanto Klay recupera nos Warriors) e este ano os Blazers voltaram a afinar uma máquina que tanto pode engrenar e superar todos os obstáculos. Ou encravar e deixar só as habituais memórias de momentos mágicos (mas incompletos) de Lillard.

Os Nuggets estiveram muito perto, na última temporada, de dar um salto que ninguém esperava e chegar à final da Conferência Oeste, travados precisamente por Lillard e McCollum. Mas o crescimento acelerado da equipa liderada pelo inconfundível e inebriante Nikola Jokic, um poste pesado com técnica de base e pés de extremo, torna-os especialmente difíceis de bater. A constelação de talento à sua volta continua a aumentar e o parceiro Jamal Murray assumiu, nos play-offs, um papel intermitente mas prometedor, que faz sonhar a cidade de Denver como nunca na sua existência na NBA.

Classe média

Fora do lote das grandes potências da Liga estão as equipas cujo perfil coloca-as à distância de uma contratação certa ou de uma lesão trágica de ascender ou descender, respectivamente, na escada que é o caos da hierarquia competitiva da NBA. Do lado Este, os Celtics respiram fundo agora que ficaram sem Kyrie Irving, que tem tanto de bom jogador como de mau líder. E voltam a centrar as energias no movimento jovem que estava em curso, liderado por Jayson Tatum. Os Indiana Pacers acompanham-nos no limbo de acesso aos play-offs numa conferência muito desequilibrada, na esperança que o seu líder Victor Oladipo regresse de uma lesão grave com o mesmo potencial de MVP que apresentava antes. Já os Miami Heat tentam oferecer à lenda Pat Riley uma entrada gloriosa na reforma, apostando que um imprevisível mas talentoso Jimmy Butler consiga trazer um outro craque à sua altura para se sentarem à mesa dos candidatos.

A grande incerteza deste lote são os campeões Raptors. Ainda na ressaca do título que ganha valor a cada dia que passa pelo nível de basquetebol praticado por um conjunto de grandes jogadores liderados por um treinador audaz, Toronto pode escolher dois caminhos: um ano de celebração, já sem o MVP Leonard, mas com o plantel intacto e um Pascal Siakam como estrela. Ou desfazer-se dos contratos pesados dos heróis Marc Gasol, Kyle Lowry e Serge Ibaka, e recomeçar de novo. Em qualquer dos casos, os canadianos farão a merecida festa o ano todo.

Em plena fase de transição encontram-se os Brooklyn Nets (com Irving no topo de um bolo trabalhado com critério, numa espécie de Clippers do Este, mas à espera do regresso saudável de Durant na próxima época), os Detroit Pistons (Blake Griffin e Andre Drummond tentam convencer os relutantes adeptos a encherem o novo pavilhão) e os Orlando Magic (que depois de anos a cambalear pela Liga conseguiram encontrar um conjunto de talentos e um treinador competente).

No Oeste, os Spurs continuam a desafiar as probabilidades e a duplicar a aposta num estilo de jogo ao arrepio das grandes tendências da Liga. O seu jogo pausado, interior e eficiente tem, no entanto, um tecto bem definido numa competição em que a velocidade do jogo e o volume de triplos atropela qualquer anomalia no seu caminho. Já os Thunder foram apanhados pelo livre arbítrio das suas duas estrelas e viram-se empurrados para um processo de renovação muito gradual, dado que ficaram com alguns jogadores talentosos como contrapartida das saídas de George e Westbrook.

Jovens ao poder

As equipas onde a transição geracional terá mais impacto têm dois aspectos em comum: todas têm jovens de grande talento que prometem dominar a próxima década da modalidade; e todas estão no Oeste, onde o comboio de acesso aos play-offs já está sobrelotado. Os Dallas Mavericks “roubaram” o unicórnio Kristaps Porzingis a Nova Iorque e juntaram-no ao artista europeu Luka Doncic. Os Sacramento Kings têm uma dupla de bases que compara bem com a elite da posição, entre De’Aaron Fox e Buddy Hield. Os Minnesota Timberwolves tentam rodear o seu potencial MVP, o poste Karl Anthony Towns, com talento para dar o salto.

E depois há os New Orleans Pelicans. Após a saída forçada de Davis, os Pelicans miraram o abismo e, num ápice, o draft deu-lhes a próxima grande estrela da NBA, Zion Williamson, já comparado ao próprio Davis ou ao jovem LeBron James. O seu talento desfaz, no entanto, qualquer comparação. Um jogador de futebol americano com uma agilidade de um bailarino. E uma técnica ao nível dos melhores bases da NBA. Os seus movimentos em campo desafiam a própria física do jogo. O fenómeno do basquetebol universitário – onde captou a atenção de milhões no país inteiro – só foi travado pelas lesões, que já estão também a ensombrar a estreia na NBA.

Neste pelotão, as equipas dos Atlanta Hawks, Bulls, Memphis Grizzlies e Phoenix Suns também tentam começar a subir na tabela classificativa empurrados por jovens em maturação, mas num estado menos desenvolvido que os seus rivais.

No grupo de “lesados” da má gestão que atravessa a NBA, os Washington Wizards, New York Knicks, Cavaliers e Charlotte Hornets só estão à espera que o tempo passe sem que os seus adeptos abandonem os pavilhões, enquanto lhes continuem a vender a ilusória participação na Liga mais aberta e equilibrada dos últimos 25 anos.