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O mundo do futebol está na Taça da Ásia

O italiano campeão do mundo, os dois seleccionadores portugueses, o português que joga pelo Qatar, o núcleo chileno da selecção da Palestina, o favorito que é de outro continente e outras histórias da competição que se inicia este sábado.

Pedro Correia é internacional pelo Qatar Reuters

Demograficamente falando, a Taça da Ásia, que começa hoje nos Emirados Árabes Unidos, é a maior competição de futebol do planeta. Representa mais de metade da população mundial e, no entanto, tem um sabor internacional que se estende aos outros continentes, seja pelo facto de um dos favoritos, a Austrália, ser geograficamente da Oceânia, ou por apenas quatro seleccionadores em 24 serem asiáticos. Ou por haver um defesa nascido em Mem Martins que é um esteio da defesa do Qatar. Ou pelos quatro chilenos que jogam pela Palestina.

Duas das selecções favoritas têm treinadores portugueses e com a coincidência de um ter sucedido ao outro no comando da selecção portuguesa. Aos comandos da selecção do Irão desde 2011, Carlos Queiroz vai cumprir a sua segunda participação na Taça da Ásia (chegou aos quartos-de-final em 2015), mas não há certeza sobre se irá continuar – tem contrato até ao final do torneio, mas há notícias que dão como certa a sua ida para a selecção colombiana. Já Paulo Bento acabou de chegar à selecção da Coreia do Sul, mas está a dar-se bem – ainda não perdeu em sete jogos disputados, com três vitórias e quatro empates.

Tanto Queiroz como Bento já têm experiência de participar em Mundiais de futebol, mas não chegaram tão longe como o seleccionador da China, Marcelo Lippi, campeão mundial com a “squadra azzurra” em 2006. Falando de treinadores italianos, também lá está Alberto Zaccheroni, antigo treinador da Juventus e do AC Milan e que já foi campeão asiático com o Japão, desta vez no banco da selecção da casa. Juan António Pizzi vai dirigir a Arábia Saudita, tal como fez no Mundial da Rússia, enquanto Hector Cúper deixou o Egipto para ir dirigir o Uzbequistão. Entre os 20 treinadores não asiáticos da Taça da Ásia, menção especial para o sueco Sven-Goran Eriksson que esteve na segunda divisão chinesa, passou um ano e meio desempregado e agora está na selecção das Filipinas.

De Mem Martins para o Qatar

Parte do sabor internacional desta Taça da Ásia passa por Mem Martins, nos subúrbios de Lisboa, perto de Sintra. Foi lá que nasceu Pedro Miguel Carvalho Deus Correia, defesa-central com grande parte da formação feita no Benfica e 31 vezes internacional pelo Qatar. Desde 2016 que está autorizado a representar o país que vai receber o Mundial em 2022 e é bastante provável que lá esteja – tem 28 anos. Foi o próprio a inventar a alcunha pela qual muitos o conhecem, Ró-Ró (homenagem aos brasileiro Romário e Ronaldo), mas esta é apenas uma pequena parte do seu fantástico percurso no futebol.

Começou num clube de Mem Martins, mas rapidamente passou para a formação do Benfica, onde esteve cinco temporadas. Depois, ainda andou pela formação de Estrela da Amadora, Estoril e Farense, antes de ir parar ao Aljustrelense. Foi aqui, como contava numa entrevista ao Maisfutebol em 2016, que um empresário o desafiou com o futebol do Qatar. Isto foi em 2010 e, nos oito anos seguintes, foi conquistando o seu lugar no futebol. Em 2015, passou a partilhar o campo com um dos grandes médios de todos os tempos, Xavi Hernández, para além do convívio diário no Al Saad com um dos mais experientes treinadores portugueses, Jesualdo Ferreira.

O luso-qatari Ró-Ró não é o único naturalizado na Taça da Ásia. Só a selecção da Palestina tem oito futebolistas que nasceram fora do território, isto sem contar com os que nasceram em Israel. Cinco nasceram na América do Sul, quatro no Chile (há uma significativa comunidade palestiniana no país e até há um clube, o Palestino, que já foi campeão) e um argentino, dois são europeus (um sueco e um esloveno) e outro nasceu nos EUA. Há um iraquiano nascido na Dinamarca, um defesa da Quirguízia que nasceu no Gana, um filipino que nasceu na Alemanha, outro que nasceu em Inglaterra (e formado no Chelsea, Phil Younghusband), dois libaneses nascidos na Suécia, dois norte-coreanos nascidos no Japão, ou um sírio que chegou a representar selecção sub-16 da Holanda, só para citar alguns exemplos.

Os “portugueses”

Entre os 598 jogadores que vão disputar a Taça da Ásia, três jogam na liga portuguesa: o avançado Shoya Nakajima (Portimonense/Japão), o médio Osama Rashiid (Santa Clara/Iraque) e o guarda-redes Amir Abedzadeh (Marítimo/Irão). Outros têm passado no futebol português, como Awer Mabil, um australiano nascido num campo de refugiados no Quénia, filho de pais do Sudão do Sul (jogou no Paços de Ferreira em 2017-18), ou o indiano Sunil Chhetri, que, em 2012-13, cumpriu um total de 43 minutos em três jogos pelo Sporting B. Pode não ter passado de uma nota exótica no futebol português, mas Chhetri é o maior goleador presente nesta Taça da Ásia, com 65 golos marcados em 103 jogos.

Nenhuma selecção tem, no entanto, tantas ligações a Portugal como a China. São cinco os jogadores que passaram pelo futebol português. O médio Wei Shishao fez sete jogos pelo Boavista em 2014-15, tendo ainda passagens por Feirense e Leixões, enquanto Zhang Chengdong teve os seus 15 minutos de fama ao marcar três golos pelo Mafra numa eliminatória em 2010 frente ao Sporting – depois ainda passou por União de Leiria e Beira-Mar. O defesa Liu Yiming passou pela formação do Casa Pia e do Sporting, antes de cumprir meia época no Pinhalnovense, e o também defesa Liu Yang navegou entre Sintrense, Cova da Piedade e Oriental Dragon.

Nesta selecção chinesa ainda está o primeiro jogador chinês a actuar em Portugal, Yu Dabao, que era tido como uma grande promessa nos tempos em que passou pela formação do Benfica (onde foi treinado por Bruno Lage, recém-nomeado técnico principal dos “encarnados”). Camacho ainda lhe deu algumas oportunidades em 2007 (três jogos, um deles a titular), mas não vingou na Luz e ainda passou por Aves, Olivais e Moscavide e Mafra, antes de uma boa carreira ao serviço de vários clubes chineses, o suficiente para, aos 30 anos, continuar a ser chamado à selecção.