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A maior tragédia depois da maior conquista

Há 30 anos, um desastre aéreo vitimou 176 pessoas, incluindo 15 jogadores holandeses com raízes no Suriname que formavam uma equipa com propósitos humanitários conhecida como o “Onze Colorido”.

Um mural de homenagem a Andro Knel no estádio do NAC Breda DR

A segunda grande geração do futebol holandês tinha acabado de conquistar o título europeu na Alemanha e era justamente celebrada como a melhor equipa do mundo. Frank Rijkaard, Ruud Gullit, Marco van Basten, os irmãos Koeman conseguiram, em 1988, aquilo que Cryuff e companhia não tinham conseguido nos anos 1970, um grande título de selecções para a “Laranja Mecânica”. E esta era uma geração com o toque sul-americano dos imigrantes do Suriname, uma antiga colónia holandesa no continente americano que ganhara a independência em 1975.

Rijkaard e Gullit, por exemplo, tinham raízes naquele território, e não eram os únicos a brilhar no futebol holandês. Nem um ano tinha passado sobre a maior conquista e o futebol holandês iria sofrer a sua maior tragédia, um desastre aéreo que vitimou 176 pessoas, incluindo 15 jogadores de origem surinamesa que estavam a regressar ao Suriname para vários jogos de solidariedade.

Foi a 7 de Junho de 1989 - fez há uma semana 30 anos - que o voo 764 da Surinam Airways se despenhou durante a aproximação à pista do aeroporto de Paramaribo. A bordo estava uma equipa de futebol conhecida como o “Onze Colorido”, um grupo de futebolistas nascidos ou com origens no Suriname a actuar na Holanda e que estava a fazer a viagem com propósitos humanitários, de recolher fundos para ajudar a diáspora surinamesa.

Entre eles não estavam Rijkaard, Gullit, Aaron Winter ou Bryan Roy, que não estavam autorizados pelos respectivos clubes a fazer esta longa viagem de 12 horas em final de época. Entre os convocados do “Onze Colorido” estava ainda o guarda-redes do Ajax Stanley Menzo, que também não tinha sido autorizado pelo clube de Amesterdão a fazer a viagem, mas fintou a proibição e foi antes de todos os outros, dizendo que ia de férias.

Esta não era uma equipa de grandes feitos desportivos, como o “Grande Torino” que pereceu em Superga, em 1949, os “Busby Babes” do Manchester United, vítimas do desastre de Munique, em 1958, ou a Chapecoense, vítima de um desastre em 2016 quando ia a caminho de uma final na Colômbia. Esta era uma equipa de jovens e veteranos unidos pelas suas origens (18 jogadores e um deles servia como treinador) num grupo de passageiros maioritariamente composto por emigrantes que regressavam às origens, para um total 187 pessoas a bordo.

As investigações concluíram que o acidente aconteceu devido a uma mistura de erro humano e negligência por parte da companhia aérea. O comandante era um norte-americano de 66 anos que não estava autorizado a pilotar aquele avião numa viagem tão longa, e o seu co-piloto estava registado com uma identidade falsa, mas não houve escrutínio suficiente por parte da companhia quando foram contratados. E foi uma leitura errada dos instrumentos por parte da tripulação no momento da aproximação à pista que provocou o desastre.

Para além do mais, segundo testemunhos dos 11 sobreviventes, o avião não parecia estar em condições. “Algumas coisas estavam coladas com fita-cola”, recordou mais tarde Edu Nandlal, um dos três futebolistas que sobreviveram ao desastre. Nandlal, na altura defesa-esquerdo do Vitesse, só sobreviveu porque trocou de lugar com um colega de equipa que queria dormir durante o voo e pediu-lhe para ficar numa cadeira junto à saída de emergência, com mais espaço para as pernas. Nandlal foi encontrado no meio dos escombros ainda fumegantes por volta das cinco da manhã, em estado de choque, por um homem que tinha sido seu colega de escola. “Estava escuro, cheirava a gasolina. Ouvia pessoas a gritar, ouvia crianças… Tudo o que eu pensava era: ‘Isto não pode ser verdade, é um sonho. Estamos quase a aterrar e vamos jogar futebol’.”

Entre os jogadores do “Onze Colorido” que morreram no desastre de Paramaribo estavam alguns jovens que se tinham começado a destacar no futebol holandês, como Andy Scharmin, defesa do Twente e capitão da selecção de sub-21 da Holanda, ou Andro Knel, um talentoso médio ofensivo do NAC Breda que usava rastas, ouvia reggae e ia de patins para os treinos – e era imensamente popular entre os adeptos, não só do NAC, como do seu anterior clube, o Sparta de Roterdão, tanto que, sempre que há um jogo entre os dois, os adeptos dos dois lados disputam uma partida a que chamaram a Taça Andro Knel.

Nas três décadas que passaram desde o desastre, a influência do Suriname no futebol holandês não parou de aumentar e a lista de nomes com raízes no pequeno país sul-americano daria para fazer uma selecção ao nível das melhores. Já falámos de Rijkaard, Gullit, Winter e Menzo, mas também fariam parte desta equipa outros nomes do passado como Patrick Kluivert, Edgar Davids, Clarence Seedorf e Jimmy Floyd Hasselbaink, e outros do presente, como Virgil van Dijk e Giorgino Wijnaldum. Esta seria uma equipa candidata a todos os títulos e mais algum.