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Julio Iglesias: o romântico vai à baliza

Até aos 19 anos foi guarda-redes dos escalões inferiores do Real Madrid. Um acidente de automóvel conduziu-o a uma carreira como o cantor latino mais popular de sempre.

Julio Iglesias a tirar fotos promocionais para o seu concerto no Bernabéu em 1983 DR

Já vai em 50 anos a cantar para todas as mulheres que amou na vida. Julio Iglesias, eternamente bronzeado e machucador profissional de corações, é a quintessência do cantor romântico latino, em perpétuo sofrimento de amor correspondido e não correspondido (e quase sempre vestido de branco), a matriz pela qual todos os cantores românticos (latinos e não só) se guiaram, incluindo o filho Enrique. Serão mais de 300 milhões de discos vendidos em meia década que fazem de Iglesias o artista latino mais popular de sempre (Enrique é o segundo). Deu milhares de concertos um pouco por todo o mundo – terá mais um neste sábado, no lisboeta Altice Arena – e muitos desses espectáculos foram em estádios de futebol, um resquício do que podia ter sido a sua vida. Julio Iglesias podia ter feito carreira em estádios rodeado de milhares de pessoas aos gritos, mas de chuteiras e luvas. E também vestido de branco.

Cantar foi uma vocação tardia e acidental da forma mais literal possível (já lá iremos) para Julio José Iglesias de la Cueva, nascido em Madrid de uma família com origens galegas. Nos seus anos de adolescência, Julio desenvolveu uma paixão pelo futebol e pelo Real Madrid, e conciliou estes dois amores da melhor forma possível. Aos 15 anos, em 1958, começou a jogar na formação dos “merengues”, convivendo de perto com aqueles que faziam do Real a melhor equipa da Europa. Julio aprendia com os melhores, Di Stéfano, Puskas, Gento e outros, na esperança de, um dia, ser um deles. “No início, estava disposto a jogar em todas as posições”, contaria em 1987 numa conversa com o jornal ABC e publicada numa série de fascículos chamada “Historia Viva del Real Madrid”. “Tinha qualidades, pelo menos era isso que os treinadores diziam.”

As qualidades futebolísticas que os treinadores do Real Madrid viram no jovem Julio fizeram-no recuar para a baliza. “Aconselharam-me a ser guarda-redes porque acharam que seria o lugar melhor para mim. Disseram-me que seria um guarda-redes nato e, por isso, dediquei-me em pleno. Nos treinos sentia-me confortável nessa posição e trabalhei para ir melhorando. Não é tão fácil como se pensa. É preciso estar concentrado e seguir o jogo segundo a segundo durante os 90 minutos”, contava.

Júlio Iglesias como guarda-redes do Real Madrid Castilla DR

Dos 15 anos 19 anos, Julio Iglesias fez a sua aprendizagem futebolística na baliza e, em 1962-63, já treinava ocasionalmente com a primeira equipa, ao mesmo tempo que jogava com regularidade no Real Madrid Castilla. Era uma vida desportiva que conciliava com os estudos universitários – estava no início do curso de Direito. Às quintas-feiras, os miúdos treinavam com a primeira equipa e o jovem “portero” era a vítima das bombas dos craques, em especial de Puskas, que “metia a bola onde queria”. Alguns dos que acompanharam Julio Iglesias na formação “blanca”, como Amancio Amaro, Pedro de Felipe ou Pirro, acabariam por ter carreiras longas e cheias de títulos no Real, mas Julio não chegou a ter a sua oportunidade.

O acidente automóvel

No dia anterior a completar 20 anos, a 22 de Setembro de 1963, Julio foi festejar com amigos o aniversário. No regresso, era ele que ia a conduzir um Morris Mini, com mais dois passageiros, quando se despistou na estrada de Majahadonda-Madrid ao entrar numa curva apertada a mais de 100km/h. Não houve vítimas mortais no acidente, mas a carreira futebolística de Julio Iglesias acabou ali. O jovem guarda-redes só acordou numa cama de hospital, parcialmente paralisado, com múltiplas fracturas e uma lesão na coluna, sem garantias de alguma vez voltar a andar, quanto mais voltar a jogar futebol.

Durante ano e meio, Iglesias fez terapia para recuperar as suas funções motoras – e nunca recuperou totalmente do acidente. Parte dessa terapia foi com uma guitarra que um dos enfermeiros do hospital lhe colocou nas mãos e, como se costuma dizer, o resto é história. “La vida sigue igual” foi a primeira música que escreveu durante a reabilitação, foi o seu primeiro êxito e deu o título à versão cinematográfica do seu princípio de vida em que Julio Iglesias fez dele próprio. Iglesias é que não acreditava muito na sua vida como cantor, pelo menos a julgar por uma entrevista nada profética de 1971 concedida ao diário AS. “A vida de cantor é mais longa que a de um futebolista? Não é. Um futebolista que se trate bem pode manter-se dez a 12 anos numa equipa, e é quase impossível o cantor fazer o mesmo, por muito bom que seja.”

"La Vida Sigue Igual", o filme em que Julio Iglesias faz dele próprio

Onze anos depois do acidente, já em plena aceleração como “estrela” da canção, Julio Iglesias ainda olhava para trás com frustração. “Dava tudo o que consegui a cantar para ser guarda-redes do Real Madrid”, dizia na mesma entrevista ao AS. Mais tarde, no entanto, reconheceria que não teria tido grande carreira como futebolista. “Nunca teria sido um grande guarda-redes. Era muito ‘flaquito’. Tinha muita ‘ilusión’, mas nunca podia ter sido uma estrela do futebol”, admitiu Iglesias, um dos mais famosos adeptos do Real Madrid e amigo próximo de Florentino Perez, actual presidente dos “merengues”.

Em 1983, já com 25 anos de carreira, Julio Iglesias teve finalmente o seu momento no Santiago Bernabéu, a casa “blanca” que diz ser a sua segunda casa, com mais de 100 mil pessoas a emocionarem-se a cada canção entoada pela sua voz, a cumprir uma vocação tardia que ainda chegara a tempo. “Eu era um bom desportista. Cantar, nada. Nem tinha ideia, nem sequer me interessava a música, não seguia as músicas, não comprava discos. Para mim, a música era o som do estádio, o do Real Madrid, e o som da universidade”, contou Iglesias numa entrevista ao Diário de Notícias em 2017. “A guitarra, sim, mudou-me a vida. Porque eu não podia mexer as mãos […] e deram-me uma guitarra como brincadeira. Toma lá! E aí deu-se esta maluquice. Escrevi canções. […] Não sabia cantar. Depois, a vida deu-me muitas oportunidades, deu-me muito tempo. Se eu hoje fosse a um concurso de voz, nem sequer me ouviam.”

Concerto de Julio Iglesias em 1997, em Lisboa Adriano Miranda