Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Grasshopper caiu após 68 anos

O clube recordista de títulos na Suíça não evitou a queda para o segundo escalão, após quase sete décadas de presença ininterrupta entre a elite. Época foi marcada pela violência dos adeptos

O desalento de um dos jogadores do Grasshopper após mais um mau resultado na Liga suíça DR

Um nome ilustre do futebol europeu, recordista de títulos no seu país, a caminho da segunda divisão. O desfecho da temporada do Grasshopper Club Zurich, clube histórico na Suíça, já deixou de ser uma dúvida: a penosa temporada do emblema mais titulado do futebol suíço consumou a queda para o segundo escalão, após praticamente sete décadas de permanência entre a elite. Era um desastre à espera de acontecer para um clube há alguns anos a viver em trajectória descendente, vítima de má gestão e presa de adeptos violentos.

Desde que tinha regressado à Liga suíça, em 1951, nunca o Grasshopper tinha deixado de estar na principal competição. Mas, 70 anos depois da última despromoção vivida pelo clube de Zurique, eis que voltam a estar condenados a descer um escalão. Numa temporada de pesadelo, os dedos de uma mão bastam para contar as vitórias obtidas no campeonato: cinco em 34 partidas (ainda há duas jornadas por disputar), demasiado pouco para deixar de estar ancorado ao último lugar da classificação.

O prego que faltava no caixão do Grasshopper surgiu em circunstâncias particularmente delicadas: na visita ao Lucerna, o clube de Zurique foi goleado por 4-0 num encontro interrompido devido a distúrbios provocados pelos adeptos visitantes a seguir ao quarto golo – exigiram aos jogadores que tirassem as camisolas por não serem dignos de vesti-las, tendo-se registado agressões e insultos. “O ataque físico e verbal dirigido a um jogador de cor foi particularmente chocante. Devemos combater em conjunto todas as atitudes racistas e formas de discriminação”, frisou o presidente da Liga suíça, Claudius Schäfer.

“Vergonhoso e simplesmente inaceitável”, foi assim que o Grasshopper se referiu ao incidente, que ditou a interdição de cinco adeptos dos estádios suíços – dois por agressão a um futebolista e três por invasão de campo, por períodos entre dois e cinco anos. Foi mais um incidente a juntar à lista de desacatos protagonizados pelos adeptos do clube: em Abril os actos de vandalismo cometidos na visita do Grasshopper ao Neuchâtel Xamax obrigaram à intervenção da polícia, e no mês anterior, em Sion, a partida foi interrompida devido ao arremesso de artefactos pirotécnicos para o relvado.

O comportamento violento dos adeptos é uma dor de cabeça a juntar a todas as outras. Três treinadores passaram pelo banco do Grasshopper, que viu cair as assistências no estádio (esta época tem uma média de 5965 espectadores por jogo, contra os 7017 da temporada passada) e os patrocinadores também se têm afastado. “Este desinteresse é maior em Zurique, a capital económica da Suíça. É uma praça financeira importante, com um dos aeroportos mais bem servidos da Europa, repleta de empresas cuja actividade gravita em torno dos bancos. Muita gente que vive em Zurique vem de outros países, fica durante alguns anos e depois volta a emigrar. Não temos o registo tipo do amante de futebol, disposto a deslocar-se para ir ao estádio”, apontou Grégory Quin, investigador do Instituto de ciências do desporto da Universidade de Lausanne, citado pela revista francesa So Foot.

Mas nem sempre o clube e a cidade viveram de costas voltadas. “Após uma derrota do Grasshopper, não sou capaz de escrever durante uma semana”, terá um dia afirmado o dramaturgo Friedrich Dürrenmatt, adepto do clube. O que diria ele de uma despromoção?

Uma longa história

Clube com uma longa história, o Grasshopper orgulha-se de ser o segundo mais antigo ainda em actividade na Suíça, apenas atrás do St. Gallen. O Grasshopper foi fundado em 1886 em Zurique por um estudante inglês chamado Tom E. Griffith, que escolheu o azul e branco como cores do clube em homenagem ao Blackburn, emblema do qual era adepto no seu país-natal. Um dos pontos altos dessa história aconteceu precisamente na sequência de uma despromoção. Em 1951-52 o Grasshopper conseguiu regressar ao principal escalão, obtendo um feito que ninguém repetiu: como clube recém-promovido, sagrou-se campeão e conquistou a taça.

Essa poderá ser uma inspiração para ultrapassar o ponto baixo que atravessa. O Grasshopper viu-se mesmo na ignomínia de ser obrigado a jogar no Letzigrund, estádio do grande rival, o FC Zurique, após a demolição do seu recinto, em 2008. O projecto para a construção de um novo estádio ainda não saiu do papel.

Rekordmeister do campeonato suíço, com 27 títulos de campeão (o Basileia é segundo com 20) e 19 taças (mais seis do que o Sion), o Grasshopper está afastado do trono do futebol helvético desde 2003. O título mais recente é de 2013, uma Taça da Suíça conquistada nos penáltis frente ao Basileia. Mas tratou-se de algo absolutamente excepcional: na época 2011-12 a despromoção foi uma perspectiva real, apenas evitada pela falência do Neuchâtel Xamax e pelo castigo aplicado ao Sion, clube ao qual foram retirados 36 pontos por utilização irregular de jogadores. Mas era só o adiar de uma despromoção inevitável.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos. Ouça também o podcast