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O goleador sem prazo de validade

Souleymane Camara, “Camaradona” para os adeptos do Montpellier, continua a marcar golos aos 36 anos. E não pensa em parar tão cedo

Marcar golos no campeonato francês tem sido a vida de Souleymane Camara nas últimas duas décadas. Ele nunca se distinguiu por ser um goleador prolífico – na temporada mais produtiva da sua carreira apontou 10 golos nesta competição – mas tem sabido resistir ao tempo. O veterano futebolista do Montpellier fez história ao tornar-se no primeiro a deixar a sua marca goleadora em 15 temporadas distintas da Ligue 1 no século XXI, o que demonstra a longevidade deste ex-internacional senegalês. E, aos 36 anos, Camara ainda não pensa em parar.

Um total de 6338 dias separa o primeiro do último golo (por enquanto...) marcado por Souleymane Camara na Liga francesa. O percurso deste goleador começou em 2001, no dia do seu 19.º aniversário, e conheceu o mais recente capítulo há poucos dias, frente ao todo-poderoso Paris Saint-Germain. Camara fez o golo da vitória do Montpellier (3-2) frente aos campeões de França, comemorando o seu terceiro da temporada – e reforçando o estatuto de super-suplente, com 26 golos marcados a partir do banco. Segundo dados da empresa de estatística desportiva Opta, no século XXI, nos cinco maiores campeonatos europeus, só Kevin Gameiro (27) o supera.

Souleymane Camara cresceu em Dakar, a capital do Senegal, e foi detectado por observadores do Mónaco ainda jovem. Foi pela primeira vez ao principado fazer testes quando tinha 16 anos, e estreou-se pelo emblema monegasco aos 18 anos, na temporada 2001-02. Marcou o primeiro golo da carreira profissional a 22 de Dezembro de 2001, no dia em que completava 19 anos (num triunfo sobre o Rennes) e o segundo chegou duas semanas depois, em pleno Parque dos Príncipes (com outra vitória do Mónaco).

No entanto, a adaptação à vida longe da cidade natal não foi fácil. “Eu morava num bairro popular. Dakar é parecida a Paris em certos aspectos, há gente por todo o lado, há movimento... Chegar ao Mónaco foi um choque”, recordava em 2017, num perfil feito pela revista francesa So Foot. Tendo tido problemas com o visto que atrasaram a sua estreia e sem dominar o francês (no Senegal falava wolof), a tendência do jovem Souleymane foi para um crescente isolamento. “Jogávamos ao sábado às 15h, estávamos livres por volta das 17h, e se não fosse com fazer alguma coisa com um companheiro de equipa, ficava no meu quarto até segunda-feira de manhã”, acrescentava o avançado, cuja conta de telefone no primeiro mês longe de casa ascendeu a 5000 francos (cerca de 750 euros).

Uma segunda época com quatro golos marcados em 22 presenças no campeonato reduziu o espaço do jovem senegalês no Mónaco, que a meio da temporada 2003-04 (em que os monegascos chegariam à final da Liga dos Campeões, tendo perdido contra o FC Porto) rumou ao Guingamp por empréstimo. Em 2005 colocou um ponto final na ligação ao Mónaco para rumar ao Nice, mas com um golo em duas épocas também não conseguiu convencer. Cedido em 2007-08 ao Montpellier, que estava então no segundo escalão, teve a continuidade que procurava e correspondeu com 11 golos, suficientes para convencer os dirigentes a contratá-lo em definitivo.

E por lá continua até hoje. Na segunda temporada o Montpellier conseguiu a subida, e em 2009 Souleymane Camara estava de regresso aos golos na Ligue 1. O senegalês contribuiu para o histórico e inédito título de campeão que o clube conquistou em 2011-12, tendo sido o terceiro melhor marcador da equipa, com nove golos – atrás de Olivier Giroud (21) e Younès Belhanda (12). Mais um título a acrescentar ao currículo de Camara, que já vencera a Taça da Liga francesa em 2003 (ao serviço do Mónaco) e tinha sido finalista vencido da Taça das Nações Africanas, pela selecção do Senegal, em 2002.

O lugar de Souleymane Camara na história do Montpellier já estava a ser consolidado: ele é o melhor marcador do clube no principal escalão do futebol francês (52 golos), somando no total 76 – em termos absolutos fica apenas atrás de Laurent Blanc, que fez 84 golos pelo clube entre 1983 e 1991. Apesar de o seu tempo de jogo ter vindo a diminuir nos últimos anos, o avançado senegalês continua a mostrar-se útil: na presente temporada participou em dez jogos na Ligue 1 (sempre como suplente utilizado), num total de 110 minutos, e marcou três vezes: sensivelmente um golo a cada 37 minutos.

“Se tenho um segredo? Essa pergunta tem de ser feita ao ‘Vito’”, sorriu Camara após ter marcado, há três semanas, no triunfo sobre o Toulouse. Referia-se ao companheiro de equipa Vitorino Hilton, veterano capitão do Montpellier, que aos 41 anos acaba de renovar contrato com o clube por mais uma época. “Fisicamente sinto-me bem e desfruto de cada momento que passo em campo. A época é longa e a qualquer momento o treinador poderá precisar de mim, portanto é necessário estar preparado”, acrescentava o avançado senegalês.

O treinador Michel Der Zakarian vai utilizando Camara como arma secreta – e exemplo para os mais jovens. “Não joga muito, mas dá sempre tudo o que tem. Farto-me de dizer aos jovens para olharem para ele, como para o Hilton. É o exemplo de um futebolista de alto nível na forma como aborda os treinos e interpreta o futebol”, sublinhou o técnico. Aos 36 anos, Souleymane Camara terminará contrato com o Montpellier em Junho. O fim da carreira não entra, ainda, no seu horizonte: “Sei o que ainda posso dar. Continuar em França ou rumar ao estrangeiro, viver outras experiências, veremos que propostas chegam”.

Os adeptos idolatram-no com cânticos em que lhe chamam “Camaradona”, misturando o apelido do senegalês com o nome do argentino considerado por muitos como o melhor de sempre. Se continuar na Ligue 1, na próxima época poderemos estar novamente a falar dele: pode superar o recorde de maior desfasamento entre o primeiro e o último golo no campeonato francês, que pertence a Daniel Bravo: entre 1981 e 1999, passaram 6579 dias. Já faltou mais para Camara lá chegar.

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