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O fim trágico do goleador Gunnar Andersson

Melhor marcador da história do Marselha, o sueco cedeu ao alcoolismo e chegou a dormir na rua.

Gunnar Andersson, à esquerda, marcou 169 golos na Liga francesa em 222 partidas pelo Marselha OM.net (DR)

Um gigante que procura regressar aos tempos áureos, o Marselha pode orgulhar-se de ser recordista de participações no campeonato francês (69 épocas e 2474 partidas disputadas). Números sem par no futebol do “hexágono”, embora tenham reflexo em apenas nove títulos, atrás do Saint-Étienne, dez vezes campeão.

Quinto classificado na época que terminou, o OM foi buscar o português André Villas-Boas para tentar contrariar o domínio do Paris Saint-Germain e recuperar o trono – depois dos quatro títulos conquistados sucessivamente entre de 1989 e 1992, os marselheses foram campeões pela última vez em 2009-10. Podem ainda orgulhar-se de serem os únicos franceses campeões da Europa (1992-93), numa época marcada pelas suspeitas de corrupção a envolver o então presidente Bernard Tapie, que ditaram a perda do título nacional.

Um goleador acima de qualquer suspeita será uma peça importante no projecto de Villas-Boas – e o Marselha não teve na sua história nenhum como Gunnar Andersson. O sueco, que representou o OM durante oito anos (1950-1958), marcou 169 golos na Liga francesa em 222 partidas durante esse período. Um registo que o mantém como melhor marcador da história do clube, e também um dos melhores da história do campeonato. Com os dez golos que viria a apontar mais tarde pelo Bordéus soma um total de 179, o décimo melhor desempenho goleador de sempre.

Andersson seria também o primeiro da história a defender com sucesso o título de melhor marcador na Liga francesa: apontou 31 golos em 1951-52 e na época seguinte voltou a superar a concorrência, com 35 remates certeiros (em 34 jogos).

Mas a vida de Gunnar Andersson não teve a glória que o número de golos que marcou faria prever. Desportivamente, durante o período em que vestiu a camisola do Marselha o clube não conquistou qualquer título excepto uma Taça Charles Drago (competição que se disputou entre 1953 e 1965 e envolvia as equipas do primeiro escalão eliminadas antes dos quartos-de-final na Taça de França). E pessoalmente sofreu um fim foi trágico: tendo-se debatido com o alcoolismo e a penúria, acabaria por morrer aos 41 anos, a caminho do Vélodrome, com um ataque cardíaco.

Tendo despertado para o futebol no clube da terra onde nasceu, o IFK Arvika, Gunnar Andersson captou a atenção do presidente do Marselha, Louis-Bernard Dancausse, que em 1950 o viu jogar pelo KB Copenhaga num encontro particular em Barcelona que assinalou o 50.º aniversário do emblema “blaugrana”.

A contratação concretizou-se antes do final do ano e a sua chegada a Marselha foi marcada por um episódio insólito: a viajar de comboio para a cidade no sul de França, Gunnar recebeu um telegrama com instruções para desembarcar em Avignon, onde um carro estaria à espera para o conduzir a Marselha. Mas tudo não passava de uma manobra de dois jornalistas, Raymond Gimel e Lucien d’Apo, que assim tiveram o exclusivo das declarações do reforço sueco.

Gunnar Andersson estreia-se a 17 de Dezembro de 1950 e marca pela primeira vez a 31 de Dezembro, um “bis” frente ao Toulouse. Termina essa época inaugural com 12 golos e já começava a ter a alcunha de “Monsieur 10h10”, em referência à forma como colocava os pés ao caminhar, a lembrar um pinguim. O sueco ia-se adaptando à vida em França, como exemplifica uma história de veracidade duvidosa: “Quando o Gunnar jantou pela primeira vez com a equipa, pediu leite para acompanhar a refeição. Mas homens adultos não bebem leite. Ofereceram-lhe vinho. E ele gostou”, contou Jean Robin, companheiro do avançado no Marselha, citado na revista The Blizzard. “Se fosse verdade, isto significaria que o clube, ou os seus companheiros de equipa, inadvertidamente o colocaram no caminho do alcoolismo. Recordei esta história a um jornalista veterano em Gotemburgo que replicou: ‘Creio que ele já sabia o que era uma garrafa antes de ir para França’”, acrescentava o autor Gunnar Persson.

O gosto de Gunnar Andersson pelo pastis, os aperitivos alcoólicos aromatizados com anis, era bem real. As “pequenas bebidas amarelas destiladas pelo diabo”, como lhes chamava, acompanharam-no e aceleraram a sua decadência após vários anos em bom nível. Gunnar abandonou o Marselha em 1958, seguindo-se passagens sem grande história por Montpellier, Bordéus, Aix-en-Provence, CAL Oran, AS Gignac e um brevíssimo regresso ao IFK Arvika. Acabaria por voltar a França, primeiro para Paris, onde se viu sem-abrigo tendo chegado a dormir no metro, e depois Marselha, a cidade onde tinha sido feliz.

Seriamente doente, Gunnar Andersson foi auxiliado pelo então presidente do OM, Marcel Leclerc, que lhe garantiu cuidados de saúde e um trabalho. Mas o goleador sueco era uma sombra do que tinha sido. “Tinha perdido aquilo que dava significado à sua vida: o futebol. Tentou tirar o curso de treinador, mas nunca completou a formação”, escreveu Gunnar Persson.

No dia 1 de Outubro de 1969, com 41 anos, estava a caminho do Vélodrome para ver o Marselha defrontar o Dukla Praga na Taça dos Vencedores das Taças, 90 minutos de cor num quotidiano cada vez mais cinzento. Mas o coração traiu-o quando rumava ao estádio onde tinha feito tantos golos.