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“El Loco” Abreu continua a bater o seu próprio recorde

Aos 42 anos, o avançado uruguaio vai jogar no Rio Branco, da Série D brasileira, o 28.º clube da sua longuíssima carreira.

"El Loco" Abreu usa quase sempre a camisola 13 Andrew Boyers/Action Images/Reuters

Muita gente já mereceu o apelido de “El Loco” no futebol. René Higuita era “El Loco” porque era um guarda-redes que gostava de fintar avançados, para além de ter inventado a famosa “defesa escorpião” que nem sempre corria bem. Marcelo Bielsa começou a ser “El Loco” porque ameaçou fazer explodir uma granada no meio de um grupo de adeptos do Newells, furiosos com ele por causa de uma derrota pesada. Sebastián Abreu é “El Loco” por muita coisa que tem feito em campo durante mais de duas décadas a jogar futebol e por continuar no activo aos 42 anos. Em 2019, vai representar o 28.º clube da carreira, mas, como o próprio dirá, “não é loucura, é classe”.

Sebastián Abreu já era o recordista do Guinness na categoria de jogador que representou mais clubes, mas ele faz questão de continuar a bater o seu próprio recorde — foi apresentado esta semana como reforço do Rio Branco Atlético Clube, que joga no Estadual do Espírito Santo e na Série D do Brasileirão. Já deixou definitivamente para trás o outro grande nómada do futebol mundial, o guarda-redes alemão Lutz Pfannenstiel, que actuou em “apenas” 25 clubes em 12 países, sendo, por enquanto, o único a actuar em equipas de todas as confederações — Abreu também tem 12 países no seu currículo, mas andou sobretudo pelas Américas e pela Europa.

Os últimos anos da carreira de “El Loco” Abreu foram passados em clubes com nomes difíceis de reconhecer para o adepto comum, entre a primeira divisão do Paraguai (Sol de América), a segunda divisão do Chile (Puerto Montt) e do Uruguai (Central Español), a quarta divisão do Brasil (Bangú), a Liga de El Salvador (Santa Tecla). Mas houve tempos em que Abreu andou a passear a sua loucura e os seus golos por clubes de topo nas Américas e na selecção uruguaia. Nunca conseguiu vingar na Europa (esteve no Deportivo da Corunha), mas brilhou a grande altura em vários emblemas argentinos (San Lorenzo e River Plate), mexicanos (Cruz Azul, Tigres, Estudiantes, Monterrey, América e Dorados) e no Brasil (Botafogo).

Esta vida de futebolista itinerante que deu recorde levou Abreu a coincidir, por exemplo, com Pep Guardiola no mexicano Dorados de Sinaloa — e o avançado costuma contar um episódio em que o agora treinador do Manchester City o ensinou a fazer a recepção orientada da bola quando tinha um defesa adversário nas costas. Ou a tentar jogar na Liga dos Campeões, trocando o gigante River Plate pelo futebol israelita e pelo Beitar Jerusalém — foi uma aventura curta porque o Beitar ficou-se pelas pré-eliminatórias. Ou a lançar uma mesa para a bancada porque estava irritado com os insultos de adeptos do Audax Italiano (que era a sua equipa) durante um jogo do campeonato chileno.

O momento “loco” mais recordado de “El Loco” Abreu aconteceu ao serviço da selecção do Uruguai durante o Mundial 2010. Era uma selecção cheia de “estrelas” no ataque e Abreu já não estava propriamente no auge. À sua frente nas opções de Óscar Tabárez estavam Luis Suárez, Edinson Cavani e Diego Forlán, e, durante a fase de grupos, Abreu, na altura avançado do carioca Botafogo, apenas jogou 16 minutos como suplente utilizado contra a França. O Uruguai ganhou o grupo e continuou em prova após eliminar a Coreia do Sul nos “oitavos”. Abreu nem saiu do banco.

Nos “quartos”, o adversário seria o Gana. Muntari colocou a equipa africana em vantagem, Forlán empatou nos primeiros minutos da segunda parte e Abreu entrou aos 74’. O empate não se desfez, a eliminatória foi para prolongamento e, no último minuto, uma malandrice dentro das regras de Luis Suárez impediu a qualificação ganesa. Suárez impede um remate de Adiyiah de entrar na baliza, o árbitro marca penálti, mas Muslera defende e o jogo vai para os penáltis. Abreu estava na lista para ser o terceiro a marcar, mas pediu a Tabárez para ser o quinto.

Estava cheio de confiança, apesar de ter falhado três penáltis no treino do dia anterior. Quando chegou a hora de encarar Richard Kingson, o guarda-redes ganês, Abreu avançou lentamente para a bola, armou lentamente o remate, esperou que o seu adversário se atirasse para a direita, e picou a bola para o meio da baliza, como Antonin Panenka tinha feito na final do Europeu de 1976. Loucura, certo? Nada disso, considera Abreu, que calculou ter marcado mais de 20 penáltis “à Panenka”: “O objectivo é fazer golos, fazer com que a bola vá para dentro da baliza e, para tal, é preciso enganar o guarda-redes, ir contra a lógica. Não é uma loucura, é classe.”