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Chattanooga FC, do Tennessee para o mundo

Já leva dez anos a história deste clube de uma cidade pequena do interior dos EUA, que vai sobrevivendo graças aos seus laços com a comunidade e crowdfunding de alcance internacional.

O nome não será nada estranho para quem gosta de “big bands” dos anos 1940. “Chattanooga Choo Choo” foi uma música celebrizada pela orquestra de Glenn Miller sobre uma viagem de comboio entre Nova Iorque e uma localidade no Tennessee chamada Chattanooga. Esta cidade pequena no interior dos EUA seria um local altamente improvável para o futebol criar raízes e crescer, mas é exactamente isso que está a acontecer com o Chattanooga FC, um clube que existe há uma década e que rapidamente chegou ao topo das preferências desportivas da cidade, mesmo que jogue no equivalente à quarta divisão do soccer norte-americano.

É um clube diferente do que existe no supersaturado desporto dos EUA. Pode andar longe do topo da cadeia alimentar e sem perspectivas de subir (a não ser que pague), mas isso não afasta os adeptos. “Somos um clube com muitas ligações à comunidade local e, ao contrário de quase todas as ‘franchises’ desportivas dos EUA, assumimos o compromisso de ficar em Chattanooga para sempre”, diz ao PÚBLICO Tim Kelly, presidente e um dos fundadores do clube. “Claro que o dinheiro é importante e queremos um clube sustentável, mas, mesmo que deixemos de ter estádio, nunca vamos deixar a cidade”, garantiu.

Na verdade, não tem razões para deixar Chattanooga porque, na última época, tem conseguido uma numerosa comunidade de adeptos entre os cerca de 150 mil habitantes da cidade que não têm muito para onde se virar em termos de desporto – essencialmente equipas universitárias e uma equipa no terceiro escalão do basebol. Os jogos do Chattanooga FC no relvado sintético do Finley Stadium (que é usado para futebol americano) têm uma média superior a quatro mil espectadores (mais do que, por exemplo, oito equipas da Liga portuguesa) e com um recorde absoluto de 18 mil estabelecido em 2017 num jogo com a equipa B do New York Cosmos.

Uma década de existência foi mais que suficiente para os adeptos se organizarem numa claque – são os Chattahooligans – e criarem os seus próprios rituais, que inclui, naturalmente, a música celebrizada por Glenn Miller. Aliás, antes de cada jogo, há a tradição de haver uma procissão de centenas de adeptos liderada por uma banda que, depois, vai para a bancada. “É um ambiente fantástico. Já vi jogos em Inglaterra e na Argentina e, mesmo sendo numa escala menor, é um ambiente eléctrico. Conseguimos aproveitar muito bem o não haver muitas equipas na cidade. Isto reforça o sentimento de comunidade numa cidade pequena como a nossa”, admite Kelly.

Numa lógica de associativismo popular como o grande pilar do clube, o Chattanooga FC seguiu o modelo de outros clubes, como o FC United of Manchester, de abrir a sua estrutura accionista aos próprios adeptos, mas com uma diferença. Através de uma plataforma de crowdfunding, o clube está igualmente a captar o investimento de adeptos de futebol um pouco por todo o mundo. “Temos investidores em todos os 50 estados e de dezenas de países à volta do mundo, incluindo alguns de Portugal. A partir de 2016, a lei norte-americana passou a permitir isto e nós fomos os primeiros no desporto a fazê-lo”, conta Tim Kelly – desde o início de Janeiro, o Chattanooga FC já angariou mais de 700 mil dólares.

Com a expectativa de casa cheia para a recepção neste fim-de-semana aos espanhóis do Betis de Sevilha, o Chattanooga já faz parte da mobília da cidade, mas gostava de crescer. E, para que isso aconteça, alguma coisa terá de mudar no soccer dos EUA. “Para entrar numa divisão superior é preciso pagar. Para jogar na MLS, basta passar um cheque de 150 milhões de dólares”, lamenta Tim Kelly. “É impossível para uma equipa como a nossa jogar na primeira divisão. Espero que a FIFA esteja atenta e que mude isto para que passe a haver promoções com base em mérito desportivo, e que nós possamos crescer.”