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O Bastia caiu no abismo e deixou muita gente a fazer contas

Má gestão provocou queda no quinto escalão. Centenas de credores reclamam dívidas acumuladas num total superior a 27 milhões

Em 2017, os adeptos do Bastia fizeram uma recolha de fundos que gerou mais de 200 mil euros Charles Platiau/Reuters

Há duas temporadas que a Córsega não entra no mapa da Liga francesa, e pelo menos o principal representante do futebol da ilha ainda tem pela frente uns bons anos até regressar ao primeiro escalão. O Bastia soma um total de 1264 partidas distribuídas por 34 presenças na principal competição de França, mas anda por estes dias longe dos holofotes — anos de maus resultados, episódios de violência das claques e péssima gestão afundaram o clube em dívidas e atiraram-no para o quinto escalão. Para que os erros do passado não se repitam, os adeptos têm voz activa na gestão do clube, que pretendem seja mais transparente.

A queda do Bastia no abismo aconteceu em 2017, ano que ficou marcado por vários incidentes, com destaque para as agressões a jogadores do Lyon, na partida disputada na Córsega, por um grupo de adeptos que invadiu o relvado. A equipa, que terminaria a época com o português Rui Almeida no comando técnico, acabaria no último lugar da classificação. E a situação francamente negativa a nível financeiro arrastou o clube para o abismo.

O Bastia não apresentou as garantias necessárias para disputar o segundo escalão em 2017-18, perdeu o estatuto profissional e corria o risco de jogar na terceira divisão. Mas as coisas ainda iriam piorar: o clube declarou falência e enfrentava a perspectiva de cair para o último escalão, nos campeonatos regionais. Acabariam por aparecer dois novos accionistas que viabilizaram a inscrição do Bastia na quinta divisão, e é aí que o clube procura reerguer-se. Tendo falhado a subida de escalão na época passada (terminou em segundo, a dois pontos do primeiro), está determinado a consegui-la este ano, sendo líder destacado, com nove pontos de vantagem.

A nível financeiro as coisas são mais complicadas. Os detalhes da situação calamitosa do Bastia vão sendo conhecidos à medida que a administração judicial vai apurando os factos. Segundo escreveu o diário desportivo francês L’Équipe, haverá mais de uma centena de credores lesados pelo emblema corso, cujas dívidas acumuladas ultrapassam os 27 milhões de euros. “Até à data, porque os litígios ainda não estão resolvidos, cerca de 12,5 milhões de euros são susceptíveis de serem reembolsados”, podia ler-se.

“A lista de empresas da Córsega afectadas por este terramoto é impressionante. Encontramos um talho, um florista, um comerciante de vinhos, restaurantes, um estucador, um carpinteiro, um nutricionista, médicos, empresas de limpeza, segurança, fornecedores, lojas de informática. O clube também deve mais de quatro mil euros à creche Petits Pas, que acolhia os filhos de dirigentes e jogadores. O mais afectado na Córsega é Didier Monti, dono da Espace Green. A empresa fazia a manutenção do relvado do Furiani e declarou perdas de 244.453 euros”, acrescentava o L’Équipe.

O dia-a-dia é gerido com dificuldade. Poucos patrocinadores restam, e o dinheiro vai entrando graças à fidelidade dos adeptos e à contribuição de alguns ex-jogadores. “Em 2017 os adeptos fizeram uma recolha de fundos que angariou mais de 200 mil euros”, destacou o presidente Claude Ferrandi, que assumiu o cargo após a queda do emblema corso. O clube tem vendido mais de 3000 bilhetes de época e conta com a generosidade de futebolistas que vestiram a camisola azul e branca. “O que o Wahbi Khazri fez é grandioso. Telefonou-me um dia, meteu-me em contacto com a mulher e, em três minutos, tínhamos um cheque de dez mil euros”, contou Ferrandi sobre o futebolista nascido na Córsega e formado no Bastia.

“Toda a gente quer conhecer a verdade e perceber como é que os nove antigos accionistas puderam deixar o clube tão mal”, admitiu Loïc Caprelli, um dos dois representantes dos sócios no conselho de administração do Bastia. “A nossa opinião conta, não somos apenas figurantes. Tem sido um trabalho construtivo. Temos o dever de ser o mais transparentes possível e já conseguimos que seja apresentado publicamente todos os anos um relatório financeiro detalhado”, congratulou-se.

Passaram pelo Bastia futebolistas internacionais como o camaronês Roger Milla, o holandês Johnny Rep e o ganês Michael Essien. Mas o clube terá agora de fazer um longo caminho de regresso ao topo. No passado estão a Taça de França (1981) e as duas participações na Taça UEFA – em ambas defrontou emblemas portugueses, em 1978 seria finalista após afastar o Sporting na primeira ronda, e vinte anos depois eliminaria o Benfica mas cairia na ronda seguinte. O presente do Bastia é esticar o dinheiro até ao fim do mês e ir subindo a escada outra vez.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos