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O Emmy foi para A Guerra dos Tronos mas ganharam as surpresas – e Fleabag

Houve prémios inesperados para Jodie Comer e Julia Garner, históricos para Billy Porter e sonegados a Julia Louis-Dreyfus. A cerimónia celebrou e despediu-se de algumas das séries mais populares, importantes ou difíceis do último ano. Veja a lista dos vencedores nas principais categorias.

Já caiu o pano sobre os 71.ºs Emmys, que na madrugada desta segunda-feira coroaram mais uma vez A Guerra dos Tronos como Melhor Série Dramática  um dos únicos dois prémios da noite para o épico da HBO  e surpreenderam em quase todas as outras frentes de batalha. Fleabag é a comédia do ano e a sua criadora e protagonista Phoebe Waller-Bridge a estrela da noite, com três Emmys. Chernobyl recebeu três Emmys, entre os quais o de melhor série limitada, e Veep despediu-se de mãos vazias.

A vitória de A Guerra dos Tronos, nos últimos minutos da cerimónia que decorreu no Microsoft Theater, em Los Angeles, era esperada, mas foi quase uma surpresa dada a rapidez com que os cerca de 25 mil membros da Academia de Televisão foram subvertendo expectativas e previsões ao longo da noite. O paradoxo de a série de fantasia da HBO ter chegado ao acontecimento mais importante da televisão com um número recorde de nomeações (32) e ainda assim falhado o o seu próprio recorde de prémios ganhos numa só temporada, ao não conseguir mais do que duas estatuetas aladas, foi só por si uma surpresa  o que não é sinónimo de injustiça.

“Andámos literalmente sobre gelo e fogo por vocês”, disse Peter Dinklage aos criadores da série, como se falasse também aos fãs fervorosos (e críticos) de A Guerra dos Tronos, quando recebeu o Emmy de Actor Secundário num drama. Tudo indicava que a noite fosse uma volta congratulatória à pista televisiva por parte desta série, por mais que o seu fim tenha sido fracturante, e também de outro título da HBO, a comédia Veep. Mas, afinal, a Academia já tinha deixado as pistas para o desenlace da noite logo no início da cerimónia.

Uma “granada gloriosa"

Tudo começou com a comédia, categoria a que Veep prometia impor o peso da sua protagonista, que tudo indicava se tornaria na actriz com mais Emmys de sempre. Mas depois de Tony Shalhoub receber o primeiro prémio da noite pelo papel secundário na comédia The Marvelous Mrs. Maisel (o quarto Emmy em dez nomeações da sua carreira) e de Alex Borstein bisar o seu galardão na mesma categoria no feminino, chegava o primeiro Emmy da carreira de Phoebe Waller-Bridge, pela escrita de Fleabag.

O prémio teve o sabor do reconhecimento de uma série que já era elegível em 2017 mas que só agora foi nomeada pela Academia. “É reconfortante saber que uma mulher perturbada, pervertida e obscena pode chegar aos Emmys”, rematou a britânica no seu discurso de agradecimento, descrevendo a protagonista, uma viciada em sexo, desta série da BBC em parceria com a Amazon. Foi à segunda e última temporada que Fleabag ganhou quase tudo o que tinha para ganhar: a “granada gloriosa”, como chamou Harry Bradbeer a Waller-Bridge quando subiu ao palco para receber o prémio de realização pela mesma série, arrecadou também o Emmy de protagonista de comédia. “Acho ser actriz muito difícil e muito doloroso”, riu-se a vencedora, enquanto gorava todas as expectativas pessimistas dos críticos e da indústria sobre a incapacidade de a Academia reconhecer novos méritos.

Três horas sem apresentador depois, Fleabag ganhava o Emmy de Comédia do ano; Jodie Comer fora pouco antes igualmente surpreendida ao ser distinguida com o Emmy de actriz dramática pelo seu papel da assassina Villanelle. Quase todos apostavam em Sandra Oh, a sua co-protagonista em Killing Eve  um drama criado pela britânica Phoebe Waller-Bridge e que também passa na HBO Portugal.

"Vem aí Chernobyl"

Outra consagração: Chernobyl. A mini-série da HBO Portugal, um fenómeno tal que causou um boom turístico em torno do local do acidente nuclear de 1986, foi a primeira vencedora clara da noite. Tem o estatuto de série dura  há semanas, o crítico norte-americano Alan Sepinwall reflectia precisamente sobre como esta e outras séries de 2019, como When They See Us (Netflix), “são difíceis de ver [mas] oferecem grande recompensa” – e isso não escapou aos apresentadores que lhe foram entregando prémios. “Não importa quão boa é a série, ninguém precisa de ver sete temporadas de Chernobyl”, disse Bill Hader, grato por se tratar de uma mini-série. “Preparem-se para rir, porque vem aí Chernobyl”, ironizou Jon Hamm.

Chernobyl veio com tudo, primeiro com Johan Renck a bater Stephen Frears ou Ava DuVernay na categoria de realização, depois na de argumento e por fim com o Emmy de Melhor Série Limitada. A série dá-nos a ver, defende o seu autor, Craig Mazin, “o valor da verdade e o perigo da mentira” – e, claro, o poder da televisão porque nela “podemos tornar as histórias conhecidas de forma permanente”. 

When They See Us foi uma das derrotadas da noite, mas teve o seu momento com Jharrel Jerome, Melhor Actor numa Série Limitada, que lembrou que os “Central Park Five”, cinco jovens negros acusados e condenados por um homicídio que não cometeram, são agora “os Cinco Exonerados”.

Apelos à diversidade

Os punhos combativos levantaram-se na audiência, que em parte se ergueu para responder às invectivas de Patricia Arquette (Emmy de Actriz Secundária numa Série Limitada por The Act): a actriz lembrou a falecida irmã Alexis Arquette e apelou ao reconhecimento da igualdade das pessoas transgénero. O Microsoft Theater também se levantou para aplaudir Michelle Williams quando esta reclamou paridade salarial, em particular para as actrizes negras, no discurso de aceitação pelo Emmy de protagonista de Fosse/Verdon. (O caso Todo o Dinheiro no Mundo, em que recebeu mil dólares contra o 1,5 milhão de Mark Wahlberg para refazer parte do filme de Riddley Scott, tornou-se emblemático da discriminação laboral de género em Hollywood.)

Ovações em pé? Pelo Emmy de Billy Porter como protagonista da série Pose (canal FX, e Netflix em Portugal), de Ryan Murphy, o primeiro homem abertamente gay premiado nesta categoria. Emocionado, agradeceu poder “caminhar nesta terra como se tivesse o direito de estar aqui": “Tenho o direito. Vocês têm o direito. Todos temos o direito.”

À medida que o final se aproximava, a intriga adensava-se. Os favoritos estavam a ser suplantados por novatos até nas categorias em que A Guerra dos Tronos poderia acumular mais números  mas apesar das palmas de pé quando parte do elenco se reuniu em palco, tal como o fez o elenco de Veep (A Teoria do Big Bang ou House of Cards também chegaram ao fim este ano, mas não tiveram direito a momentos especiais), no drama os Emmy de argumento e realização foram para a nova sensação Succession e para o autor Jesse Armstrong (mais um trunfo HBO), e para o primeiro Emmy do actor Jason Bateman pela direcção de um episódio de Ozark (Netflix). E de Ozark, a história de uma família que “breaks bad” para fugir de crimes que cometeu, veio outra surpresa, a do galardão dourado de actriz secundária num drama para Julia Garner, a dura Ruth desta série Netflix.

Sem surpresas? Bill Hader arrecadou o seu terceiro Emmy (já foi nomeado 20 vezes) e o segundo consecutivo pelo papel de Barry, o assassino a soldo que tenta uma carreira de actor (HBO). Last Week Tonight with John Oliver ficou com dois Emmys nas categorias de escrita e melhor talk show (o quarto consecutivo para o magazine de humor e denúncia da HBO).

E, como se depreende pela recorrência da sigla no resumo da noite, a HBO foi de longe a estação vencedora, com 34 Emmys (já trazia dez dos Creative Arts Emmys só para A Guerra dos Tronos, que apesar de tudo fechou a sua oitava temporada com um total de 12 galardões), seguida de 27 Emmys para a Netflix, entre os quais o de melhor filme com Blackmirror: Bandersnatch, e 15 para a Amazon  Fleabag The Marvelous Mrs. Meisel são séries Amazon nos EUA, o que a tornam uma vencedora nesse prisma.

Não é também inesperado que a Academia de Televisão tenha tentado manter o programa rápido depois de em 2018 ter tido “só” dez milhões de espectadores, a audiência mais baixa de sempre. Sem anfitrião mas com apresentadores como Bryan Cranston e Norman Lear, passando por Gwyneth Paltrow e Kim Kardashian, também era expectável que fizesse o seu próprio elogio. “A televisão já não é só entretenimento, é um atalho para nos compreendermos um pouco melhor. Já repararam que a forma como nos cumprimentamos mudou? Ainda fazemos o ‘olá, como estás?’ obrigatório, mas quando perguntamos ‘o que andas a ver?’ é que começamos a estabelecer laços”, disse Frank Scherma, o presidente da Academia.

Eis os vencedores e nomeados nas principais categorias:

Drama

Melhor série dramática

A Guerra dos Tronos

Better Call Saul

Bodyguard

Killing Eve

Ozark

Pose

Succession

This is Us

Melhor actor numa série dramática

Billy Porter - Pose

Jason Bateman - Ozark

Sterling K. Brown - This Is Us

Kit Harington - A Guerra dos Tronos

Billy Porter em "Pose"

Bob Odenkirk - Better Call Saul

Milo Ventimiglia - This is Us

Melhor actriz numa série dramática

Jodie Comer - Killing Eve

Emilia Clarke - A Guerra dos Tronos

Viola Davis - Como Defender um Assassino

Laura Linney - Ozark

Jodie Comer

Mandy Moore - This is Us

Sandra Oh - Killing Eve

Robin Wright - House of Cards

Melhor actor secundário numa série dramática

Peter Dinklage - A Guerra dos Tronos

Jonathan Banks - Better Call Saul

Giancarlo Esposito - Better Call Saul

Alfie Allen - A Guerra dos Tronos

Nikolaj Coster-Waldau - A Guerra dos Tronos

Michael Kelly - House of Cards

Chris Sullivan - This is Us

Melhor actriz secundária numa série dramática

Julia Garner - Ozark

Gwendoline Christie - A Guerra dos Tronos

Lena Headey - A Guerra dos Tronos

Sophie Turner - A Guerra dos Tronos

Maisie Williams - A Guerra dos Tronos

Fiona Shaw - Killing Eve

 

Comédia

Melhor série de comédia

Fleabag (BBC America/Amazon)

Barry (HBO Portugal)

The Good Place (NBC/Netflix)

The Marvelous Mrs. Maisel (Amazon)

Phoebe Waller-Bridge é "Fleabag"

Russian Doll (Netflix)

Schitt's Creek (CBC)

Veep (HBO Portugal)

Melhor actor numa série de comédia

Bill Hader - Barry

Anthony Anderson - Black-ish

Don Cheadle - Black Monday

Ted Danson - The Good Place

Bill Hader é "Barry" HBO

Michael Douglas - The Komisky Method

Eugene Levy - Schitt's Creek

Melhor actriz numa série de comédia

Phoebe Waller-Bridge - Fleabag

Christina Applegate - Dead to Me

Rachel Brosnahan The Marvelous Mrs. Maisel

Julia Louis-Dreyfus - Veep

Natasha Lyonne - Russian Doll

Catherine O'Hara - Schitt's Creek

Melhor actor secundário numa série de comédia

Tony Shalhoub - The Marvelous MrsMaisel

Henry Winkler - Barry

Anthony Carrigan - Barry

Stephen Root - Barry

Alan Arkin - The Kominsky Method

Tony Hale - Veep

Melhor actriz secundária numa série de comédia

Alex Borstein - The Marvelous MrsMaisel

Sarah Goldberg - Barry

Sian Clifford - Fleabag

Olivia Colman - Fleabag

Betty Gilpin - GLOW

Kate McKinnon - Saturday Night Live

Marin Hinkle - The Marvelous MrsMaisel

Anna Chlumsky - Veep

 

Melhor série limitada

Chernobyl (HBO)

Escape at Dannemora (Showtime/TVSéries)

Fosse/Verdon (FX)

Sharp Objects (HBO)

When They See Us (Netflix)

"Chernobyl"

 

Melhor telefilme

Black Mirror: Bandersnatch (Netflix)

Brexit (HBO)

Deadwood: The Movie (HBO)

King Lear (Amazon)

My Dinner with Hervé (HBO)

Melhor actor num telefilme ou série limitada

Jharrel Jerome - When They See Us

Hugh Grant - A Very English Scandal

Jared Harris - Chernobyl

Benicio del Toro - Escape at Dannemora

Sam Rockwell - Fosse/Verdon

Mahershala Ali - True Detective

Melhor actriz num telefilme ou série limitada

Michelle Williams - Fosse/Verdon

Amy Adams - Sharp Objects

Patricia Arquette - Escape at Dannemora

Aunjanue Ellis - When They See Us

Joey King - The Act

Niecy Nash - When They See Us

Melhor actor secundário num telefilme ou série limitada

Ben Wishaw - A Very English Scandal

Stellan Skarsgård - Chernobyl

Paul Dano - Escape at Dannemora

John Leguizamo - When They See Us

Michael K. Williams - When They See Us

Asante Blackk - When They See Us

Melhor actriz secundária num telefilme ou série limitada

Patricia Arquette - The Act

Emily Watson - Chernobyl

Margaret Qualley - Fosse/Verdon

Patricia Clarkson - Sharp Objects

Marsha Stephanie Blake - When They See Us

Vera Farmiga - When They See Us

Melhor série de variedades – talk show

Last Week Tonight with John Oliver (HBO)

The Daily Show with Trevor Noah (Comedy Central)

John Oliver

Full Frontal with Samantha Bee (TBS)

Jimy Kimmel Live! (ABC)

The Late Show with Stephen Colbert (CBS/SIC Radical)

The Late Late Show with James Corden (CBS/SIC Radical)

Notícia corrigida às 10h24 de 24 de Setembro: Fleabag é uma série Amazon em Portugal