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Será que vamos ter ainda Verão no Outono?

Tendências apontam para um prolongamento do Verão durante os meses de Setembro e início de Outubro.

Cerimónia de celebração do Equinócio de Outono num calendário rupestre, feito em pedras gigantes, em Vila Nova de Foz Côa Enric Vives-Rubio

O Equinócio de Outono ocorre esta segunda-feira, dia 23 de Setembro, às 8h50. Marca oficialmente o início do Outono no hemisfério Norte, pondo um ponto final (supostamente) no Verão. Mas, afinal, como foi este Verão e o que podemos esperar da próxima estação?

“O equinócio corresponde à posição da Terra na órbita que descreve em torno do Sol em que ambos os hemisférios da Terra são igualmente iluminados pelo sol”, começa por explicar ao PÚBLICO Alfredo Rocha, professor de Meteorologia e Clima da Universidade de Aveiro. Em teoria, esta é a altura do ano em que a noite e o dia têm a mesma duração.

Com a chegada do Outono, põe-se fim a um Verão que ficou marcado por uma ausência de ondas de calor e por um mês de Junho excepcionalmente frio — como não havia há 19 anos - em Portugal continental.

E se, neste Verão, a Europa Central foi afectada por uma onda de calor, os portugueses acabaram por escapar a este fenómeno, uma vez que o anticiclone dos Açores encontrava-se em “latitudes mais baixas do que é normal e mais para Oeste, o que permitiu que as superfícies frontais e a corrente marítima entrassem mais em Portugal”, verificando-se um transporte de ar mais frio e marítimo, explica ao PÚBLICO Vanda Pires, meteorologista da Divisão de Clima e Alterações Climáticas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

No entanto, a meteorologista do IPMA alerta que “o Verão meteorológico começa logo no dia 1 de Junho e acaba a 31 de Agosto”, não sendo estes períodos coincidentes com os equinócios.

Um Verão sem ondas de calor

Segundo dados do IPMA, Junho foi um mês com uma temperatura um grau Celsius inferior à média, enquanto Julho foi normal em termos de temperatura.

Em termos gerais, Junho foi “um mês relativamente frio para aquilo que é normal para essa altura do ano”, explica Vanda Pires. Um Junho “diferente”, uma vez que, nos últimos anos, os meses de Junho têm tido valores de temperaturas “quase sempre acima do normal” — como aconteceu em 2017.

O “normal”, explica a meteorologista, é estabelecido de acordo com uma média calculada a partir dos dados de 30 anos (entre 1971 e 2000). “Em relação a essa média calculamos o desvio, para baixo ou para cima, na temperatura que se registou nesse mês”, acrescenta.

Já o mês de Julho foi normal ao nível da temperatura média de Portugal continental, tendo-se registado, porém, algumas variações em termos diários. Por outro lado, segundo Alfredo Rocha, Julho foi um mês “extremamente seco, principalmente no centro e sul do país”.

O calor chegou em Agosto, com temperaturas acima da média. “Não foram valores extraordinários, mas de facto tivemos valores acima do normal, sobretudo na segunda quinzena”, sublinha a meteorologista do IPMA.

No entanto, segundo o IPMA, não houve registo de ondas de calor durante os três meses de Verão. O instituto meteorológico destaca apenas uma onda de calor nas regiões do Centro e algumas do litoral sul do país, assim como numa estação meteorológica do Porto, entre 29 e 30 de Agosto a 8 de Setembro, com o IPMA a associar esta onda de calor já ao Outono. 

Quanto ao mês de Setembro, o professor de Meteorologia e Clima da Universidade de Aveiro nota que “os meses de Primavera e Outono são meses tipicamente instáveis em que ocorrem frequentemente tempestades que geram precipitação localizada e intensa”. No entanto, Vanda Pires refere que nos primeiros 15 dias de Setembro registaram-se valores de temperatura acima do normal, com baixa precipitação.

Um prolongamento do Verão

Já no ano passado, enquanto a Escandinávia passava por um Verão quente, a chuva e o frio persistiam em Portugal. Estaremos então a assistir a uma descida gradual das temperaturas nos meses de Verão? A resposta é não.

Para Alfredo Rocha “existe e sempre existiram variações de ano para ano”, mas se tivermos em conta a média ao longo dos últimos anos, na verdade, “as temperaturas têm vindo a aumentar consistentemente, em Portugal e no resto do mundo”.

“Tivemos um Julho um bocadinho atípico no ano passado, que foi mais frio do que é normal. Mas depois tivemos o Verão de 2017, que foi o 6.º Verão mais quente desde 2000”, afirma a meteorologista do IPMA. Embora admita que este Verão e o de 2018 não foram excepcionalmente quentes, Vanda Pires nota que estes fenómenos são consequência da grande variabilidade que existe em Portugal. “Temos um clima muito variável, tanto podemos ter situações de calor intenso como situações mais frias. Não há nenhum padrão de descida de temperatura no Verão nestes últimos tempos. Pelo contrário, a maior parte dos verões têm sido acima do valor médio”, diz.

Quanto à estação da queda das folhas, as previsões a longo prazo apontam para “valores acima do normal [da temperatura média semanal] praticamente para todo o território” nas últimas semanas de Setembro até ao dia 13 de Outubro.

Embora não seja possível afirmar com certeza que este será um Outono quente, Vanda Pires afirma que “estes últimos Outonos têm também registado alguns valores elevados de temperatura com ocorrências de ondas de calor”. As tendências em Portugal continental apontam assim para “uma antecipação da Primavera que começa um bocadinho mais cedo” e para um “prolongamento do Verão” — ou pelo menos do calor — Outono dentro. E as estações do ano, essas, tornam-se cada vez mais difíceis de distinguir.

No futuro, o “mais preocupante”, diz a meteorologista, é “o aumento do número de dias com temperatura máxima superior a 30ºC e 35ºC” não só no Verão, mas também no Outono.

“O que tem acontecido é que a temperatura média global e de Portugal, em particular, tem vindo a aumentar consistentemente e este aumento está relacionado com as alterações climáticas”, conclui Alfredo Rocha. O que significa que temos de nos adaptar “a mudanças climáticas que estão a acontecer mais rapidamente agora do que nos últimos milhares de anos.”